Empresários ambiciosos e projetos ousados marcam a curta trajetória das fabricantes fundadas no Brasil que não vingaram

Gurgel BR 800: um dos modelos mais icônicos entre as marcas brasileiras
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Gurgel BR 800: um dos modelos mais icônicos entre as marcas brasileiras

A Gurgel estará para sempre nos corações dos apaixonados por carros. O projeto ousado de um empresário ambicioso começou como um projeto de faculdade que contrariava as imposições do sistema: criar um carro 100% nacional ao fim da década de 60. Ao longo de seus 25 anos de vida entre as marcas brasileiras, a Gurgel produziu mais de 40 mil veículos. No início dos anos 90, sofreu com a concorrência das multinacionais, encerrando as atividades em 1993.

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É um legado de peso. Teve subcompacto urbano, jipe utilitário e até carro elétrico. O Gurgel Tocantins foi o grande sucesso da marca, em 1988. Mas o que realmente aquece os corações dos apaixonados por carro até os dias de hoje é o BR-800. Este não levava qualquer peça feita por outra montadora. Era 100% nacional, e seu motor de 2 cilindros e 800cc foi feito na própria marca no interior de São Paulo. Um verdadeiro sucesso entre as marcas brasileiras.

Depois da Gurgel, surgiram algumas apostas de marcas brasileiras que nunca saíram do papel ou duraram pouco tempo. São projetos ousados que envolvem até superesportivos. Conheça alguns desses projetos que não foram pra frente em mais uma lista do iG Carros.

1 - DoniRosset

DoniRosset: motor de Dodge Viper com mais de 1.000 cv de potência temperam a receita que nunca saiu do forno
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DoniRosset: motor de Dodge Viper com mais de 1.000 cv de potência temperam a receita que nunca saiu do forno

Você compraria um superesportivo brasileiro de R$ 2 milhões que bebe apenas etanol? Este era o plano da marca nacional DoniRosset, do empresário William Denis Rosset. O projeto, que viu a luz do dia apenas em 2012, surgiu de forma despretensiosa, quando William fez um desafio ao designer Fernando Morita (ex-Volkswagen). A intenção inicial era projetar um esportivo nacional para presentear seu pai, ao qual a marca faz um tributo no nome. E dos rascunhos de Morita foram esculpidas as primeiras linhas do DoniRosset, o supercarro brasileiro com motor 8.4 V10, de 1.007 cavalos, do Dodge Viper.

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O motor foi instalado com sucesso, mas o carro não anda. Trata-se apenas de um protótipo para apresentar a viabilização do projeto. Em 2012, William Rosset afirmou que tinha mais interessados do que sua produção poderia suportar. O único protótipo foi feito de forma artesanal, e levou 35 mil horas para ser concluído, conforme a fabricante. Infelizmente, até o momento, o DoniRosset não viu a luz do dia. Os envolvidos no projeto chegaram a comentar a possibilidade de montar um esportivo menor e mais racional, mas aparentemente, os planos esfriaram.

2 - Rossin-Bertin Vorax

Rossin-Bertin Vorax: o projeto arrancou elogios até do dono da Koenigsegg
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Rossin-Bertin Vorax: o projeto arrancou elogios até do dono da Koenigsegg

Imagine como seria uma drag race entre dois superesportivos nacionais? Isso seria possível se o DoniRosset andasse e o Rossin-Bertin Vorax, atração do Salão do Automóvel de São Paulo de 2010, tivesse ido pra frente. O Vorax surgiu da mente do designer Fharys Rossin, que esteve envolvido na concepção da nova geração do Camaro, e o empresário Júnior Bertin, dono da importadora Platinuss.

Porém, nesta corrida fictícia, o Vorax ficaria bem atrás do DoniRosset. Ele integrava o motor V10 de 570 cv da BMW, mesmo que sua base levasse os mesmos materiais utilizados pela Ferrari F430. Três protótipos foram feitos (dois cupês e um conversível), sendo que apenas os dois primeiros chegaram a rodar em testes. A marca diz que o Vorax atingiu 280 km/h.

E não foi só o público que ficou maravilhado com a exposição do Vorax no Salão de São Paulo. Christian Von Koenigsegg, fundador da montadora Koenigsegg e pai dos motores mais potentes do mundo, ficou impressionado com o projeto. Além de visitar a fábrica da Rossin-Bertin em São Caetano do Sul (SP), ofereceu seus motores para a marca brasileira. Até hoje, esta foi a única vez que a Koenigsegg cogitou instalar seus motores em carros de outra marca. Que moral!

3 - Hofstetter

Sim, o Brasil também tem esportivo com "asa de gaivota" e ele atende pelo nome de Hofstetter. Quando tinha apenas dezessete anos, Mario Richard Hofstetter sonhava com um esportivo nacional. Era grande fã dos projetos italianos, com linhas retas e bem demarcadas por vértices. De acordo com Hofstetter, os esportivos que serviram de inspiração foram os emblemáticos Alfa Romeo Carabo e Maserati Boomerang.

Olhar para o Hofstetter traz diversas sensações. Ele lembra bastante o DeLorean, com seu design futurista e ousado. O cluster, cheio de luzes e cores, parece ter saído da série A Super Máquina dos anos 80. O nosso colunista Renato Bellote chegou a andar em uma das pouquíssimas unidades feitas pela Hofstetter em 2009. O vídeo é antigo, mas dá para matar um pouco da vontade de ver o esportivo nacional da asa de gaivota acelerando.

4 - JPX Montez

JPX Montez: o péssimo entendimento entre a marca e as concessionárias foi um dos motivos da falência
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JPX Montez: o péssimo entendimento entre a marca e as concessionárias foi um dos motivos da falência

Muito antes da fortuna absurda e dos escândalos recentes, Eike Batista se aventurou no mundo dos carros nacionais. A grande aposta da JPX foi a concepção de um jipinho, aproveitando o fato de que a produção do Willys havia sido interrompida dez anos antes, em 1982, e deixou uma lacuna no mercado. Pode parecer algo muito ousado, mas o JPX chegou a vencer comparativos de época na imprensa especializada, ficando à frente do competente Toyota Bandeirante.

O JPX Montez ganhou o mundo, e chegou a ser atração do Salão de Paris de 1994. Teve até uma imagem de divulgação com Luma de Oliveira, ex-mulher de Eike Batista, posando sob o capô do modelo. Uma das coisas que dificilmente seriam vistas nos dias de hoje. Com o péssimo atendimento das concessionárias e a fragilidade do projeto, a JPX foi perdendo força. Fecharam as portas em 2002, após passar um ano com a produção paralisada. Os últimos JPX saíram de fábrica com motor Peugeot. A partir daí, as coisas melhoraram e pioraram para Eike.

5 - TAC Stark

TAC Stark: procura-se! Ninguém ouve falar dele desde 2016
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TAC Stark: procura-se! Ninguém ouve falar dele desde 2016

Outro entre os projetos 100% nacionais que chegaram a ver a luz do dia e saíram de cena. O TAC Stark surgiu em 2009, no mesmo segmento em que o JPX Montez de Eike atuava anos antes. Fabricado em Joinville (SC), o modelo compacto apostava em um design mais descolado em relação ao que estamos acostumados no segmento off-road.

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Apesar de aparecer entre as marcas brasileiras, a maior parte das peças eram fornecidas pela Fiat. Incluindo o motor 2.3 turbodiesel, com intercooler eletrônico, de 127 cv, e câmbio manual de cinco velocidades. O último registro que tivemos sobre a TAC foi a venda que aconteceu em 2016. A marca brasileira sediada em Santa Catarina foi comprada pela chinesa Zotye em um processo muito parecido com a relação entre Ford e Troller, mas sumiu misteriosamente. As últimas postagens do perfil oficial da TAC Motors no Facebook são de 2013, o site está fora do ar e não há qualquer concessionária nos registros do Google. Fica aí o mistério.

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