Montadoras têm dificuldade para investir na briga atual de mercado, e ao mesmo tempo nas tecnologias do futuro.

Fiat-Chrysler Automobiles
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Fiat-Chrysler Automobiles

Nas últimas semanas, a bolsa de apostas sobre o futuro do grupo Fiat-Chrysler Automobiles (FCA) se intensificou absurdamente. Falou-se na compra do grupo por alguma empresa chinesa. Falou-se na compra apenas da marca Jeep por parte dos chineses. Falou-se na fusão do grupo com a gigante coreana Hyundai-Kia, com controle majoritário dos coreanos. Tudo desmentido pelo chefão da FCA, Sergio Marchionne. Mas pouco se falou dos significados por trás dessas especulações, e das reais consequências de sua venda/fusão, inclusive dos reflexos no Brasil, onde a Fiat é a vice-líder de mercado, e a Jeep a nona em vendas.

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O ponto central do debate a respeito da Fiat-Chrysler , em minha opinião, é a dificuldade da indústria automobilística se adaptar às novas tendências do mercado pós-revolução digital. Essa mais que centenária indústria sente no ar a urgência de dar o próximo passo rumo à salvação. Ela sabe que precisa se encaixar num novo mundo em que a posse de um carro conta muito menos do que a necessidade de se locomover de um ponto a outro de forma prática, segura, ecológica e barata. Mas o grande dilema da indústria é: Qual o passo a ser dado? Em que direção? Como sobreviver nessa transição com um pé no modelo antigo e outro no novo modelo de negócios? E como bancar o custo altíssimo dessa inescapável transição?

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Dar o passo adiante é caríssimo, e o comandante da FCA tem a perfeita noção disso. Marchionne já tentou alertar seus pares da GM e da Volkswagen para o fato de que dificilmente os velhos grupos automotivos conseguirão fazer essa travessia sozinhos, sem se unir para cortar custos. É caro desenvolver novas tecnologias e modelos de negócio, ao mesmo tempo em que todas essas montadoras precisam continuar competindo entre si pela preferência dos consumidores. Está caro cuidar do “agora” e ao mesmo tempo investir no “amanhã”.

Fábrica da FCA em Goiana (PE), onde é montado o Jeep Renegade
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Fábrica da FCA em Goiana (PE), onde é montado o Jeep Renegade

A ex-líder global GM, que há menos de 10 anos foi salva da falência pelo governo americano, não quis se associar à FCA. A quase líder global VW também fez pouco caso dos flertes de Marchionne, mesmo após ver seu colchão financeiro recentemente esvaziado pelas altíssimas multas do caso Dieselgate. A FCA é gato escaldado. Seu lado americano Chrysler vinha cambaleando há décadas, e quebrou junto com a GM após a crise de 2008. Mas o governo americano só podia salvar a maior, por isso topou ceder o controle de uma das Big 3 americanas aos italianos da Fiat, que também viviam em apuros, com presença forte apenas na Europa e principalmente Brasil.

Saturn Astra: um dos símbolos da falência da GM em 2009
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Saturn Astra: um dos símbolos da falência da GM em 2009

O fato é que muitas montadoras vivem na corda-bamba, sejam as generalistas, sejam as marcas premium. Entre este segundo grupo, a sueca Volvo foi vendida para a chinesa Geely, e as inglesas Land Rover e Jaguar são controladas pela indiana Tata. Audi e Porsche fazem parte do Grupo VW, e outras, como Lexus, são divisões de luxo de marcas generalistas (no caso, a Toyota). Deste seleto grupo, apenas BMW e Mercedes-Benz sobreviveram sozinhas.

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No time das marcas mais populares, Renault e Nissan se salvaram graças a uma bem-amarrada aliança capitaneada pelo brasileiro Carlos Ghosn, da qual a Mitsubishi também faz parte. A francesa Peugeot-Citroën recentemente vendeu 30% de suas ações para a chinesa Dongfeng, e outros 30% para o governo francês. No frigir dos ovos, apenas Ford, VW, Honda, Toyota e Hyundai-Kia conseguiram se manter longe de falências e megafusões. E mesmo essas gigantes parecem pequenas para encarar (sozinhas) desafios tecnológicos como carros elétricos, autônomos, compartilhamento, superconectividade e outras demandas desta nova era.

Águas desconhecidas

É neste cenário de mar revolto que o navio FCA busca um porto seguro, navegando com apenas uma de suas velas completamente içadas, a valiosíssima Jeep. Relatório da consultoria Morgan Stanley aponta que a Jeep, sozinha, vale US$ 33,5 bilhões, mais que os US$ 32 bilhões da soma de todas as outras marcas do grupo (Fiat, Chrysler, Dodge, Ram, Alfa Romeo, Maserati, Mopar, etc). Sabiamente, Marchionne percebeu o potencial da Jeep num mercado que cada vez mais valoriza os SUVs. Daí as novas fábricas da marca no Brasil, China e Índia.

Volvo XC90: um claro exemplo de sucesso da parceria chinesa
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Volvo XC90: um claro exemplo de sucesso da parceria chinesa

Com a Jeep como joia da coroa, a Fiat-Chrysler tenta encontrar um parceiro que ajude a custear a transição para uma nova fase da indústria automobilística, na qual os serviços de mobilidade têm mais valor do que o sonho de liberdade do carro próprio. Mas quais seriam as consequências de uma eventual fusão ou venda das marcas do grupo no mundo e no Brasil? Nada que se compare aos casos de marcas de nicho como Volvo ou Jaguar-Land Rover. Estamos falando do sétimo maior grupo automotivo do planeta. Isso é assunto para a coluna da próxima quarta-feira.

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