Variant, Parati, Elba, Fielder e agora a Weekend: todas elas assassinadas pelos consumidores “modinhas”, que compram carro por tendência

Fiat Weekend: entre as peruas, a próxima a sumir das concessionárias. Quem comprou, comprou, quem não comprou não compra mais
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Fiat Weekend: entre as peruas, a próxima a sumir das concessionárias. Quem comprou, comprou, quem não comprou não compra mais

SUV. Você ainda vai ter um. Se não tiver, verá um na casa do vizinho, do primo, do cunhado, do genro, da professora, da patricinha, do mauricinho, do chef de cozinha, da assistente social e da cozinheira. Se mesmo assim resistir, você será visto como um ET, o único ser da Terra que não possui ou não deseja possuir um SUV. Ainda mais se você for proprietário de uma das poucas peruas.

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Para mim, a extravagante necessidade de comprar um SUV (mesmo que ele não passe de um crossover com tração dianteira e jamais pise numa estrada de lama) é determinante para apressar a extinção das peruas no Planeta Carro. Essa extravagância é ainda mais chocante no Brasil, onde a última perua popular, a Weekend, derivada do Fiat Palio, está dando seus últimos suspiros.

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A publicidade dos peixinhos saltando de felicidade com a chegada da perua Weekend na praia numa antiga publicidade da Fiat.
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A publicidade dos peixinhos saltando de felicidade com a chegada da perua Weekend na praia numa antiga publicidade da Fiat.

Por que, pour qui, pour quá será? As peruas são uma das melhores invenções da indústria automobilística. Sem elas, a “santíssima trindade” formada pelo todo-poderoso Sedã, pelo humilde Hatch e pela espirituosa Perua não existe. Fica faltando algo. E esse algo não há SUV ou crossover que preencha. Claro que as peruas, também conhecidas como Station Wagons e vários outros nomes, não são as únicas criaturas automobilísticas ameaçadas de extinção no Brasil: minivans (popularíssimas na Ásia), hatches médios (popularíssimos na Europa), SUVs autênticos (popularíssimos na África) e picapes grandes (popularíssimas nos EUA) também estão na mira do desprezo brasileiro.

Salvem as peruas!

Mesmo com apenas duas portas e uma enorme janela que não abrir, era impossível não amar a Volkswagen Parati, por seu desempenho e beleza.
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Mesmo com apenas duas portas e uma enorme janela que não abrir, era impossível não amar a Volkswagen Parati, por seu desempenho e beleza.

Já faz um tempo que amantes do automóvel-raiz lançaram mundialmente a campanha “Save the Wagons”, rapidamente traduzida no Brasil para “Salvem as Peruas”. Mas, assim como as baleias nos oceanos, elas estão mesmo em extinção. E olha que podemos enumerar algumas vantagens das peruas perante seus cruéis rivais, os SUVs e crossovers, a saber:

1) são mais estáveis. Por terem o centro de gravidade mais baixo, as peruas são muito mais eficientes no contorno de curvas, sejam elas rápidas ou sinuosas, o que é um grande padrão nas estradas brasileiras;

2) são mais gostosas de guiar. Por serem mais baixas, obtém melhor penetração aerodinâmica e aceitam qualquer tipo de suspensão, tanto faz se dura para ter mais esportividade ou mole para proporcionar mais conforto. Rolam menos nos curvas e, assim, tornam a viagem mais confortável para todos os passageiros;

Chevrolet Caravan: considerada o melhor carro brasileiro num teste que Ayrton Senna realizou com 10 modelos no circuito de Interlagos em 1984.
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Chevrolet Caravan: considerada o melhor carro brasileiro num teste que Ayrton Senna realizou com 10 modelos no circuito de Interlagos em 1984.

3) são mais espaçosas. Ao contrários dos crossovers, que são hatches transformados em SUVs, as peruas são esticadas ao máximo na traseira. Um pouco mais compridas do que os sedãs, oferecem uma capacidade de carga inigualável para uma família que tem necessidade de transportar muita bagagem;

4) são mais acessíveis. Por estarem mais próximas ao chão, as peruas permitem facílimo acesso ao porta-malas, evitando dores na coluna cervical das pessoas que precisam fazer levantamento de peso para acomodar bagagem nos porta-malas dos SUVs. Além disso, facilitam a entrada e saída do carro de crianças e idosos ou mulheres com saias curtas;

5) são mais baratas. Na ponta do lápis, não existe nenhum SUV similar (em termos de conforto, motorização e equipamentos) que custe menos que uma perua;

6) são mais charmosas. As peruas estão para a arte automotiva assim como as cúpulas estão para as igrejas católicas. Existem modelos que não têm peruas, mas são incompletos. Da mesma forma, existem igrejas que têm torres, mas eles não se igualam em charme e beleza às grandes cúpulas renascentistas.

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Volkswagen Golf Variant: um dos últimos modelos à venda no Brasil, mas com preço alto e em categoria superior, o que dificulta sua popularização.
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Volkswagen Golf Variant: um dos últimos modelos à venda no Brasil, mas com preço alto e em categoria superior, o que dificulta sua popularização.

Felizmente, algumas peruas resistem bravamente. Especialmente na indústria alemã, as peruas ainda são muito fortes. E a Audi, com sua incrível variedade de peruas Avant, é a grande criadora das melhores station wagons do mundo. Se for ver certinho, as peruas só perdem em dois itens para os SUVs e crossovers: status (atualmente) e altura livre do solo (mas não em todos os casos). Recentemente, comparei a altura mínima do solo de um SUV da moda (o Peugeot 2008) com uma perua extinta (a 208 Escapade). Para minha surpresa, a peruinha era mais elevada do que o crossover.

Agora, eu lhes pergunto: todo mundo que compra um SUV precisa mesmo desse tipo de carro? Em muitos casos uma perua não seria mais adequada? Óbvio que não estou julgando o uso que cada um faz de seu próprio dinheiro, mas sim uma certa cultura consumista coletiva que endeusa demais os SUVs e leva as peruas à extinção. Da mesma forma, as péssimas estradas brasileiras não servem de desculpa, pois a indústria cansou de oferecer peruas aventureiras – reforçadas e elevadas, como a Fiat Adventure.

Já tivemos no Brasil peruas memoráveis como as Volkswagen Variant, Quantum e Parati, as Fiat Panorama, Elba e Tempra, as Chevrolet Caravan, Ipanema e Suprema, a Toyota Fielder, a Renault Grand Tour, a Ford Belina e muitas outras. Certa vez, testando 10 carros diferentes para a revista Quatro Rodas no autódromo de Interlagos, o piloto Ayrton Senna elegeu a perua Caravan, da GM, como o melhor modelo avaliado. Esses tempos não voltam mais.

Quem quiser comprar uma Fiat Weekend – que um dia apareceu alegrando nossa televisão com uma deliciosa campanha em que peixinhos cantavam na praia –, tem que correr. Os poucos exemplares que estão à venda são os últimos. Perguntei ao diretor de marketing da FCA, João Ciaco, se existe alguma chance de a perua Weekend existir na futura linha do carro que substituirá o Palio na Fiat. Ele disse que não. Também afirmou que os SUVs ainda crescerão um pouco, mas depois tendem a cair, pois os jovens já querem fugir desses carros que todo mundo compra. Isso explica a chegada dos novíssimos Fiat Argo e Cronos, Volkswagen Polo e Virtus e o anunciado Toyota Yaris.

Melhor assim, não é o suficiente. Ainda que fosse como os alemães – que deram um novo sentido às peruas ao transformá-las em carros rapidíssimos e apaixonantes –, seria bom que algum fabricante instalado no Brasil lutasse contra a maré e desse o passo inicial para salvar as peruas da extinção. Mas quem se atreve a enfrentar os consumidores “modinha” que só pensam em SUV?

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