Tamanho do texto

Sedã compacto não dá conta de atender dois segmentos e perde a guerra da imagem para o VW Virtus

Fiat Cronos 1.3 GSR: a versão intermediária do sedã da Fiat merecia um conjunto motor/câmbio mais atraente, com transmissão automática.
Carlos Guimarães/iG
Fiat Cronos 1.3 GSR: a versão intermediária do sedã da Fiat merecia um conjunto motor/câmbio mais atraente, com transmissão automática.

O Cronos é um bom carro. Mas a Fiat superestimou sua capacidade de conquistar um novo público no segmento de sedãs compactos. Com isso, o Fiat Cronos patina nas vendas, enquanto o Volkswagen Virtus – mais caro e posicionado um degrau acima – já é um sucesso de mercado, liderando o nicho de sedãs compactos superiores. O erro da Fiat foi dar ao Cronos uma missão quase impossível: ocupar dois espaços ao mesmo tempo.

LEIA MAIS: Quem é quem no maravilhoso mundo das picapes?

Com o Argo, a Fiat conseguiu. Ele substituiu de uma só vez o Palio, o Punto e o Bravo. Agora focada em retomar uma grande participação para a Fiat no mercado brasileiro, a FCA simplesmente desistiu de concorrer no segmento de hatches médios (onde estão VW Golf, Ford Focus e Chevrolet Cruze), pois ele se tornou um nicho exclusivo, de modelos caros. Nesse ponto a Fiat agiu bem. Até porque ela tem mais dois compactos de entrada para fazer um trio com o Argo: Mobi e Uno. Na prática, o Palio não faz falta nenhuma e o Bravo seria apenas figurativo. Com o Fiat Cronos , a história é outra.

Mas, com os sedãs, a história é outra. Ao aposentar o Siena, a Fiat obrigou o Cronos a disputar os clientes diretamente com Chevrolet Prisma, Ford Ka+, Hyundai HB20S e VW Voyage, que são carros bem estabelecidos no mercado. Mas, em suas configurações topo de linha (bem caras quando contam com todos os equipamentos), contra o próprio Virtus, Chevrolet Cobalt e Honda City, que são carros mais sofisticados em relação aos sedãs de entrada. Resultado disso para o Cronos? Vendas abaixo do potencial do carro e uma lacuna de mercado não preenchida.

LEIA MAIS: Precisamos falar sobre o Golf

Volkswagen Virtus: o sedã compacto mais vendido em junho superou até o Chevrolet Prisma e já mais mais de 51% de seu nicho de mercado.
Renato Maia/iG
Volkswagen Virtus: o sedã compacto mais vendido em junho superou até o Chevrolet Prisma e já mais mais de 51% de seu nicho de mercado.

Cronos e Virtus chegaram juntos ao mercado, em janeiro. O pico de vendas do Cronos foi atingido em abril e maio, com 3.382 e 3.148 emplacamentos, respectivamente. O pico de vendas do Virtus aconteceu em maio e junho, com 4.271 e 4.205 (números bem maiores). Nos últimos dois meses, a média de vendas do Virtus foi de 4.238 unidades; já a do Cronos caiu para 3.073 unidades. O carro da Volks é líder entre os sedãs compactos superiores, com 51,3% de participação. O carro da Fiat ocupa apenas o sétimo lugar entre os compactos de entrada, com 8,1% de participação.

Dos 16 sedãs compactos à venda no Brasil, o Virtus foi o mais vendido em junho e o segundo colocado em maio, perdendo apenas para o Prisma (que tem versões bem mais baratas). O Cronos foi o terceiro mais vendido de maio, mas foi ultrapassado pelo Ka+ em junho. Outro dado interessante e que não pode ser desconsiderado: pela primeira vez o imbatível Toyota Corolla perdeu clientes para o Virtus. E o mesmo pode ter acontecido com Honda Civic e Chevrolet Cruze. São três sedãs médios que ficaram muito caros e é aí que o carro da Volks está crescendo.

O passado que assusta a Fiat

Fiat Cronos 1.8: a versão topo de linha do Cronos é interessante e bem equipada, mas se torna quando completa e insuficiente para brigar contra os sedãs médios.
Divulgação
Fiat Cronos 1.8: a versão topo de linha do Cronos é interessante e bem equipada, mas se torna quando completa e insuficiente para brigar contra os sedãs médios.

É aí também que fica claro o erro de posicionamento do Cronos. Se tivesse vindo com uma distância entre-eixos maior (assim como o Virtus em relação ao Polo), o Cronos poderia se estabelecer num patamar superior e até dar resultados financeiros mais atraentes para a FCA. Ocorre que, como já disseram os filósofos Hegel e Marx, nossas atitudes hoje são resultado de experiências ocorridas no passado. E a Fiat estava cheia de razão em temer o segmento de sedãs superiores. Afinal, a marca nunca foi feliz brigando com os sedãs japoneses. Modelos como Marea e Linea jamais foram páreo para a dupla Corolla/Civic. A sacada da Volks foi ter colocado o Virtus para brigar contra as versões de entrada desses carros, mas dando ao consumidor uma forte sensação de estar levando mais. Faltou essa ousadia para a Fiat.

Outra consequência dessa sensação de superioridade do Virtus (apesar da enorme diferença de preço entre algumas versões) é que o carro da Volks ganhou a primeira batalha na guerra da imagem com o Fiat Cronos. E atualmente imagem é tudo, percepção é tudo, mesmo que tecnicamente a diferença não seja grande ou talvez nem exista. E que o Virtus tenha um acabamento mais pobre do que o do Cronos.

LEIA MAIS: Por que a Toyota vende menos carros do que o Brasil quer?

Agora é difícil reposicionar o Fiat Cronos . Um novo modelo está fora de cogitação. Nem mesmo a importação de algum sedã americano da Chrysler pode ser considerado, devido ao custo do dólar e aos impostos de importação. Resta à Fiat fazer alguns aprimoramentos no Cronos, como aposentar o quanto antes o câmbio automatizado de embreagem simples da versão intermediária, pois essa é a que tem o maior potencial de vendas. Como já dissemos, o Cronos é um bom carro – e até mais bonito e emocional do que o Virtus, além de agradável de dirigir. Um conjunto motor câmbio mais eficiente do que o atual 1.3/GSR pode fazer a diferença e levá-lo a um patamar de vendas mais elevado.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.