
Quando o Jetour T2 chegou ao Brasil no início deste ano, uma crítica aparecia com frequência: o SUV tinha visual de um legítimo utilitário off-road, mas era vendido apenas com tração dianteira. Não era um problema para a maioria dos consumidores, mas acabava gerando uma expectativa que o carro simplesmente não entregava. Agora, com a chegada da versão T2 XWD 4x4, essa história muda.
A Jetour acaba de lançar no mercado brasileiro a nova configuração topo de linha do SUV por R$ 339.990, trazendo tração integral inteligente, conjunto híbrido plug-in com três motores elétricos e uma bateria de 43,2 kWh, atualmente a maior entre os híbridos plug-in vendidos no País. Mais importante do que os números, porém, foi perceber durante o primeiro contato que o T2 finalmente passou a oferecer uma experiência compatível com a imagem robusta que sempre transmitiu.
- Veja também: Volkswagen convoca recall por falha no freio de mão
Visual mantém identidade, mas ganha personalidade própria
As mudanças visuais em relação ao T2 4x2 são discretas, mas suficientes para diferenciar a nova versão. Os detalhes em verde fluorescente dão lugar a acabamentos em cinza, enquanto o logotipo i-DM passa a ser vermelho e o emblema XWD identifica o sistema de tração integral na tampa traseira. Na exclusiva versão Dark Knight, a carroceria recebe pintura fosca preta e pinças de freio vermelhas, reforçando a proposta esportiva.

O conjunto continua chamando atenção pelo estilo "boxy", claramente inspirado no Land Rover Defender. As caixas de roda pronunciadas, o estepe externo, a assinatura luminosa em LED e a carroceria de linhas retas ajudam o T2 a se destacar em um segmento que ainda privilegia SUVs de desenho mais convencional.

Também chama atenção pelo porte. O Jetour T2 mede 4,78 metros de comprimento, 2,00 metros de largura, 1,96 metro de altura, 2,80 m de entre-eixos e tem 205 mm de altura livre do solo. Comparado ao seu principal concorrente, o GWM Tank 300, ele é 20 mm mais comprido, 70 mm mais largo e oferece 50 mm a mais de entre-eixos, o que ajuda a explicar a boa sensação de espaço interno.

Em contrapartida, o modelo da GWM é 57 mm mais alto e leva vantagem na aptidão fora do asfalto, com 222 mm de vão livre, além de ângulos de entrada e saída de 32° e 33°, contra 28° e 30° do Jetour.
Interior entrega acabamento acima da média
Se o exterior transmite robustez, a cabine aposta em sofisticação. A versão 4x4 passa a utilizar revestimentos escurecidos, com acabamento que lembra suede nas colunas, teto e bancos. O painel mantém o desenho horizontal e reúne materiais macios em praticamente todas as áreas de contato.

O painel digital de 10,25 polegadas trabalha em conjunto com a central multimídia de 15,6 polegadas, que concentra praticamente todas as funções do veículo, incluindo os oito modos de condução e os controles específicos do sistema 4x4. O funcionamento é rápido e intuitivo, embora ainda exija alguns toques para acessar determinadas funções.

O espaço interno também merece destaque. No banco traseiro encontrei bastante espaço para pernas e cabeça, mesmo com o banco dianteiro ajustado para a minha posição de dirigir. Há saídas de ar-condicionado, portas USB-A e USB-C e um bom apoio de braço central para quem viaja atrás.

Minha única ressalva fica para o acabamento das portas traseiras. Embora a dianteira utilize materiais macios em praticamente toda a cabine, atrás ainda há predominância de plástico rígido em alguns pontos, o que quebra um pouco a sensação premium do restante do interior.
Motorização aposta em quatro propulsores e gera uma discussão interessante
O coração do T2 XWD 4x4 é um sistema híbrido plug-in formado por quatro propulsores: um motor 1.5 turbo a gasolina e três motores elétricos, todos gerenciados por uma transmissão híbrida 3-DHT e pelo sistema de tração integral inteligente XWD.

O motor a combustão desenvolve 135 cv e 20,4 kgfm de torque. No eixo dianteiro trabalham dois motores elétricos: o primeiro entrega 102 cv e 17,3 kgfm, enquanto o segundo produz 122 cv e 22,4 kgfm. Já o terceiro motor elétrico, instalado no eixo traseiro, adiciona 238 cv e 31,6 kgfm. Somados, os três motores elétricos entregam 462 cv (340 kW) e 71,3 kgfm (700 Nm). Quando a Jetour soma também o propulsor a combustão, chega aos 597 cv e 91,7 kgfm divulgados pela marca.
Vale destacar, porém, que a própria fabricante faz uma observação importante em sua ficha técnica: os 597 cv representam a potência total instalada, obtida pela simples soma da potência individual dos quatro motores, e não a potência combinada, aquela que pode ficar disponível simultaneamente durante a condução.
Essa estratégia de comunicação é compreensível do ponto de vista do marketing, afinal os números enchem os olhos. Ao mesmo tempo, ela abre espaço para interpretações equivocadas, principalmente de quem associa imediatamente esse número ao comportamento dinâmico visceral que um carro com essa potência e torque combinados disponíveis.
Na estrada, conforto é o maior destaque
Mesmo acelerando forte no modo Sport, o T2 nunca transmite aquela sensação típica de alguns elétricos muito potentes, que despejam todo o torque instantaneamente e obrigam a eletrônica a controlar o carro o tempo inteiro.
Aqui acontece o contrário.
O SUV acelera rápido, faz de 0 a 100 km/h em 5,5 segundos, mas entrega essa performance de maneira extremamente controlada e gradual, o que evidencia que a potência e torque combinados seriam bem menores. A direção tem peso adequado, a suspensão privilegia o conforto e o isolamento acústico também merece elogios.
Outro ponto positivo foi justamente a suspensão. Ela absorve muito bem as irregularidades do piso sem deixar a carroceria excessivamente solta. Em velocidades de rodovia o carro transmite segurança, mesmo durante mudanças rápidas de faixa ou ultrapassagens.
Durante o percurso em estrada, o computador de bordo registrou consumo próximo de 13 km/l, número bastante interessante para um SUV desse porte e desempenho, enquanto a autonomia elétrica ultrapassou os 100 quilômetros previstos pelo Inmetro com relativa tranquilidade no uso real.
No off-road, o T2 finalmente mostra sua vocação
Foi fora do asfalto que a principal mudança apareceu.
O novo sistema XWD monitora continuamente aderência, aceleração, velocidade e demanda do motorista para distribuir automaticamente o torque entre os eixos. Além disso, o modelo oferece bloqueio eletrônico do diferencial traseiro, modo rastejamento, Tank Turn, controle de descida e oito modos de condução específicos para diferentes tipos de terreno.

Passei por subidas íngremes, trechos de lama, erosões, travessias de água e inclinações laterais utilizando, na maior parte do tempo, apenas os modos automáticos do sistema.
O que mais me chamou atenção foi a facilidade.
Mesmo utilizando pneus voltados ao uso predominante em asfalto, o T2 superou os obstáculos com bastante naturalidade. O sistema eletrônico trabalha constantemente, mas sem transmitir qualquer sensação de artificialidade ao motorista.

A câmera de visão 540° também faz diferença. Em trechos mais fechados, onde normalmente seria necessário sair do carro para avaliar o terreno, bastou recorrer ao monitor para visualizar obstáculos escondidos sob a dianteira.
Equipamentos colocam o T2 entre os mais completos da categoria
Além do conjunto mecânico, o T2 XWD 4x4 chega bastante completo.
Entre os destaques estão teto panorâmico, bancos dianteiros ventilados com ajustes elétricos e memória, carregador de celular por indução de 50 W, sistema de som Sony, câmera 540°, head-up display, assistente de estacionamento e um pacote ADAS bastante completo, incluindo piloto automático adaptativo, frenagem autônoma de emergência, assistente de permanência em faixa, monitoramento de ponto cego, alerta de tráfego cruzado e reconhecimento de placas.
A bateria de 43,2 kWh também merece destaque por permitir recargas rápidas em corrente contínua e garantir até 1.300 km de autonomia combinada, segundo a fabricante.
Vale a compra?
Saí do primeiro contato com uma impressão bastante positiva.
Mais do que simplesmente adicionar tração integral, a Jetour transformou completamente a proposta do T2. O SUV continua confortável para o uso urbano, entrega excelente espaço interno e um pacote tecnológico muito competitivo, mas agora também oferece capacidade real para enfrentar trilhas e percursos fora do asfalto.
Minha principal ressalva fica justamente para a forma como a Jetour comunica a potência do T2 XWD 4x4. Não considero incorreto divulgar os 597 cv e 91,7 kgfm, já que esses números correspondem, de fato, à soma da capacidade individual dos quatro propulsores. A própria marca deixa isso claro em sua documentação técnica. O problema é que boa parte dos consumidores dificilmente fará essa distinção antes de dirigir o carro, e pode se decepcionar caso a expectativa seja de um SUV com comportamento mais "visceral".
Independentemente dessa discussão, a chegada da tração integral muda completamente o posicionamento do T2. O SUV finalmente passa a entregar uma capacidade off-road compatível com seu visual, sem abrir mão do conforto, do bom acabamento e da tecnologia, tornando-se um dos híbridos plug-in mais interessantes da faixa de preço para quem procura um utilitário com verdadeira vocação aventureira.