
A hora da incerteza
Linha Kia K3 pode chegar este ano para brigar entre os compactos nacionais
por Marco Antonio Sarmiento Sánches
Autocosmos.com/México
Exclusivo no Brasil para Auto Press
Há dois caminhos possíveis para a chegada ao Brasil da família de compactos da Kia, K3 hatch e sedã. O primeiro é pelo Grupo Gandini, que anunciou no Salão de São Paulo, cerca de oito meses atrás, a importação do México. Nesse caso, por conta do acordo comercial com o Brasil, os compactos mexicanos chegariam a preços competitivos, para fazer frente a Volkswagen Polo e Virtus, Honda City e linha Onix, entre outros.
O outro caminho seria a concretização do acordo, que está sendo costurado, entre o Governo Brasileiro e o Grupo Hyundai, que controla a Kia Motors. Em troca de uma redução substancial da dívida de cerca de R$ 6 bilhões, por conta ainda da Asia Motors, absorvida pela Kia, a promessa é construir uma nova fábrica em Piracicaba, ao lado da planta da Hyundai. E o modelo mais cotado para ser produzido é exatamente o K3, que compartilha diversos sistema com o Hyundai i20 – por baixo da carroceria, são basicamente o mesmo carro.
Nessa avaliação feita no México, foram experimentadas uma versão de cada ponta da gama. De um lado, o K3 Sedã L, porta de entrada para a linha. Do outro, o K3 Hatch EX Pack, variante muito mais equipada, com um estilo mais esportivo. E embora compartilhem plataforma, mecânica e boa parte das peças, transmitem sensações diferentes.
O K3 Sedã L está comprometido com uma imagem sóbria e equilibrada. Ele mantém as proporções que fizeram do modelo uma das referências do segmento no México e mantém elementos-chave de design, como a silhueta fastback, que ajuda a melhorar a capacidade de carga e proporciona uma aparência mais refinada. Mas trata-se de um carro simples, com rodas de aço aro 15, iluminação halógena e um acabamento sem requintes, porém bem resolvido. Transmite racionalidade e praticidade. Por ser tão despojado, não seria a primeira opção para o mercado brasileiro.
A coisa muda com o K3 Hatch EX Pack. A carroceria hatchback já traz uma personalidade completamente diferente. É mais curto, visualmente mais robusto e com uma postura que lembra um crossover leve, graças à suspensão elevada e maior altura ao solo. As rodas de alumínio de 16 polegadas, rack no teto, detalhes esportivos e altura aumentada geram uma presença mais dinâmica. Enquanto o sedã fala de eficiência e formalidade, o hatchback transmite versatilidade e aventura.
Mas é no interior onde está realmente a grande diferença. O K3 Sedã L oferece uma cabine funcional e bem montada, focada em atender às necessidades básicas de uso. Os bancos são estofados em tecido, o volante utiliza materiais simples e o equipamento tecnológico se resume ao necessário para manter a competitividade.
Já o K3 Hatch EX Pack demonstra claramente por que custa cerca de 40% mais caro. O estofamento em couro sintético, o volante e alavanca de câmbio revestidos em couro, carregador sem fio, a iluminação ambiente configurável em 64 cores e o ar-condicionado automático de duas zonas. Não se trata apenas de equipamentos adicionais. A sensação geral de qualidade percebida muda. Materiais, texturas e acabamentos elevam a experiência.
Impressões ao dirigir
Dupla vocação
Atrás do volante, há mais semelhanças do que se poderia imaginar. Curiosamente, na seção mecânica é onde as diferenças se diluem. Tanto o K3 Sedã L quanto o K3 Hatch EX Pack utilizam o conhecido motor aspirado 1.6 litro, com 123 cv de potência – no Brasil, rende 132 cv por conta do etanol. Uma mecânica eficiente, confiável e suficiente para o uso diário. Durante a direção urbana, ambas configurações respondem de forma previsível. A entrega de potência é progressiva e o acerto privilegia o conforto acima da pretensão esportiva.
Na cidade, o motor movimenta ambos os corpos com facilidade e permite uma incorporação segura no tráfego. Na estrada, as recuperações exigem algum planejamento, o que é comum nesse nível de potência, mas nunca geram a sensação de insuficiência. E mesmo o mais simples sendo manual e o mais requintado, automático, as diferenças dinâmicas vêm mais da configuração de carroceria do que do trem motriz.
O sedã transmite uma sensação mais tradicional. O foco é claramente para quem busca um veículo confortável, estável e eficiente para viajar longas distâncias ou realizar viagens diárias sem complicações. O hatch, por sua vez, tem reações mais leves e a maior altura do solo contribui para uma percepção diferente ao volante. Não é mais rápido nem necessariamente mais esportivo, mas é mais expressivo.
A tecnologia é outra seção onde a ampliação da gama é claramente apreciada. O K3 Sedã L oferece equipamentos adequados para seu preço, incluindo elementos como tela multimídia, conectividade e controle de cruzeiro. No entanto, o Hatch EX Pack incorpora elementos que transformam a experiência do usuário: tela multimídia maior, com 10,25 polegadas, painel digital de 4,2 polegadas, chave presencial, modos de condução e uma interface mais sofisticada.
Em segurança, ambos se beneficiam de uma plataforma que conquistou cinco estrelas nos testes do NCAP Latino e de uma estrutura que se destaca em sua categoria. No entanto, o EX Pack adiciona vários assistentes de direção avançados que melhoram consideravelmente a experiência de direção e a percepção de valor.
Barafunda jurídica
por Eduardo Rocha
Auto Press
Os modelos K3 hatch e sedã já estão até homologados e prontos para serem lançados no Brasil. Mas os planos do Grupo Gandini são incertos. A matriz da Kia, que pertence ao Grupo Hyundai, e o Governo brasileiro estão negociando a dívida contraída há mais de 30 anos pela também sul-coreana Asia. A marca, que foi adquirida pela Kia, se comprometeu a construir uma fábrica na Bahia e teve diversos incentivos fiscais por conta disso. Só que nada foi feito. A Kia, como sucessora legal da Asia, empurrou tudo o quanto pôde.
Nesse meio tempo, o Grupo Gandini atuou como representante comercial da Kia e montou um sólido portfólio, que vai desde carros de passeio até veículos comerciais. Mas estava impedido de produzir modelos da marca até que a questão jurídica fosse equacionada. Agora, com a negociação – que parece estar nos momentos derradeiros –, a chance de o Grupo Gandini perder a representação é enorme.
A dívida é calculada em R$ 6 bilhões, mas a promessa da Kia agora é construir uma fábrica em Piracicaba, ao lado da planta da Hyundai e criar uma ampla sinergia, pois os projetos das duas marcas são gêmeos e as motorizações são as mesmas. Uma vez construída, poderia gerar até 5 mil empregos diretos.
Esse movimento tem a ver com a nova atitude do Grupo Hyundai de atuar diretamente nos principais mercados – atualmente, o Brasil é o sexto país em vendas de automóveis no mundo. A Hyundai teve a mesma atitude em relação ao Grupo Caoa, que era importador oficial da marca e tinha o direito de produzir alguns modelos.
A holding sul-coreana até tentou denunciar o contrato de representação, mas foi frustrada pela Justiça. A saída foi negociar e indenizar o Grupo Caoa para ter total domínio sobre a marca no Brasil. No caso do Grupo Gandini, o contrato é menos abrangente e caso a renegociação da dívida fiscal dê certo, a Kia deverá em alguns meses estar inaugurando sua planta em Piracicaba.