Peugeot 2008 GT europeu
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Peugeot 2008 GT europeu

A queda no ritmo das vendas de veículos elétricos começa a produzir efeitos concretos nas contas das montadoras na Europa. É o que afirma a agência Reuters.

Nesta segunda-feira (15), a Ford Motor comunicou uma baixa contábil de US$ 19,5 bilhões (R$ 110 bilhões, na cotação atual) após cancelar projetos de novos modelos elétricos.

A empresa citou o ambiente político nos Estados Unidos e a retração da demanda como as causas.

O anúncio expôs um problema que já vinha sendo tratado de forma mais discreta por outras fabricantes.

Na Europa, grupos como Volkswagen e Stellantis, controladora da Fiat, passaram a admitir publicamente que o mercado de elétricos perdeu a tração.

Ao mesmo tempo, as empresas intensificaram a pressão por metas ambientais menos rígidas e por sanções mais brandas no caso de descumprimento das regras da União Europeia.

A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) afirmou que o setor atravessa um momento sensível.

Segundo a entidade, o debate regulatório ocorre em meio a dificuldades crescentes das montadoras alemãs, que vêm perdendo espaço na China e enfrentam concorrência direta de veículos elétricos chineses no próprio mercado europeu.

As tarifas impostas pela União Europeia sobre carros elétricos produzidos na China pouco alteraram esse cenário, segundo a Reuters. O impacto foi limitado.

Custos seguem elevados, a escala ainda é insuficiente e a disputa por preços apertou as margens das fabricantes locais.

Esse conjunto de fatores voltou a colocar em xeque as metas de emissões previstas para a próxima década.

Hoje, a legislação europeia determina que todos os carros novos vendidos a partir de 2035 tenham emissão zero. Em Bruxelas, no entanto, já circulam propostas para flexibilizar essa exigência.

Parte da indústria vê risco nessa discussão. Michael Lohscheller, CEO da fabricante sueca Polestar, afirmou que qualquer recuo pode comprometer a posição da Europa na corrida tecnológica.

“Passar de uma meta clara de 100% de emissões zero para 90% pode parecer pouco, mas se retrocedermos agora não prejudicaremos apenas o clima. Prejudicaremos a capacidade da Europa de competir”, disse à Reuters.

A avaliação é compartilhada por organizações ambientais. Para William Todts, diretor executivo do Transport & Environment (T&E), a União Europeia está atrasada enquanto a China avança.

Segundo ele, insistir na manutenção de motores a combustão não resolve os problemas estruturais do setor automotivo europeu.

Em paralelo, a Comissão Europeia tenta destravar a demanda por outra via.

Um dos focos são as frotas corporativas, responsáveis por cerca de 60% das vendas de carros novos no continente, de acordo com dados citados pela Reuters.

A proposta prevê metas nacionais para 2030 e 2035 ajustadas ao PIB per capita de cada país, deixando aos governos a definição das medidas.

Representantes do setor apontam os incentivos fiscais adotados pela Bélgica para carros elétricos de empresa como um exemplo viável.

Também está sobre a mesa a criação de uma nova categoria regulatória para veículos elétricos de pequeno porte.

A ideia é aplicar regras mais flexíveis e conceder créditos adicionais para as metas de CO₂, desde que os modelos sejam fabricados dentro da União Europeia.

A leitura, nos bastidores, é direta: proteger a produção local da concorrência asiática.

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