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Conglomerados especializados em alta tecnologia terão mais força do que as montadoras no futuro. Veja a análise

Módulo CUbE é um protótipo da alemâ Continental para o transporte coletivo autônomo
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Módulo CUbE é um protótipo da alemâ Continental para o transporte coletivo autônomo

Foi-se o tempo em que a indústria de fornecedores autopeças era apenas um grupo de empresas que gravitava em torno das fabricantes de carros – estas sim as grandes protagonistas do setor automotivo por mais de um século. Cabia às montadoras projetar seus modelos e encomendar as peças. No máximo, alguns fornecedores de ponta participavam ativamente na criação de itens eletrônicos mais avançados. Mas sempre demandados pelas necessidades competitivas das grandes montadoras.

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Hoje, alguns grandes fornecedores já ditam os rumos do setor automotivo, e a tendência é que nas próximas duas décadas alguns deles se tornem grandes protagonistas dos serviços de mobilidade. Alguns deles são velhos conhecidos da indústria, fornecedores como Bosch, Continental, ZF, Denso, Faurecia, Aisin e Delphi, já atentos às mudanças que estão revolucionando o setor. Muitas dessas empresas estão criando divisões para focar nos componentes dos carros do futuro – e essas divisões já nascem mais valiosas do que as companhias originais, que ainda fornecem câmbios, pneus, bancos, painéis, freios e outros itens para os carros atuais.

Adient é a nova divisão do grupo de fornecedores Johnson Controls, criada para desenvolver interiores dos carros do futuro
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Adient é a nova divisão do grupo de fornecedores Johnson Controls, criada para desenvolver interiores dos carros do futuro

Mais impressionante é a quantidade de emergentes vindos de outros setores. Empresas especializadas em processadores, inteligência artificial, impressão de peças em 3D, baterias para carros híbridos/elétricos ou ainda interiores de carros autônomos. Se você gosta de automóveis, prepare-se para ouvir cada vez mais falar de Intel, Nvidia, Qualcomm, Adient, Renesas, Autoliv e outros players.

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Num futuro de módulos de transporte autônomo e outras formas alternativas de mobilidade, os recheios do carro (tecnologias, bancos, mimos e revestimentos) contarão mais para o cliente do que o logotipo da marca que estiver estampada na grade dianteira. Não acredita? Pense nos produtos da Apple ou da Samsung. São fabricados em países asiáticos, de forma totalmente terceirizada. O mais importante é a grife e sobretudo a experiência que esses produtos proporcionam aos clientes. Em alguns anos, as montadoras enfrentarão esse dilema: serão apenas fabricantes de carros ou se dedicarão ao conceito da coisa, à experiência de mobilidade? Se optarem pelo segundo caminho, poderão terceirizar a manufatura a encarroçadores especializados. Isso será facilitado pela impressão de componentes em 3D, com grandes impactos na logística.

Nividia, empresa do Vale do Silício, já desenvolve o cérebro de carros de corrida-robôs, como o Roborace
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Nividia, empresa do Vale do Silício, já desenvolve o cérebro de carros de corrida-robôs, como o Roborace

Num cenário futurista como este, certos fornecedores surgirão como protagonistas de experiências, e poderão se tornar grifes mais desejadas que as marcas de automóveis. Imagine-se em 2030 com um carro elétrico e autônomo. E esse carro será uma carcaça configurável ao seu gosto. Haverá uma disputa de grifes (e aí estarão os maiores lucros) pelo sistema de entretenimento e informação, pela configuração/acabamento da cabine, pelos aplicativos, até pelos propulsores/baterias mais eficientes. Não importa se eles estejam no seu carro próprio (o que será uma extravagância), no seu carro compartilhado, no seu carro por assinatura ou no carro do seu aplicativo predileto (Uber e afins).

Na prática, este caminho já está sendo trilhado, e há inúmeros exemplos disso. A BMW se associou à Intel e à Delphi para desenvolver uma frota de autônomos até 2021. A Volvo firmou parceria com os fornecedores de itens de segurança Autoliv e Nvidia, enquanto a Toyota trabalha cada vez mais em conjunto com as fabricantes de chips Renesas e Denso.

O carro do futuro

Alemã ZF, famosa por seus câmbios automáticos, está focando seus investimentos em tecnologias de segurança para carros autônomos e semi-autônomos
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Alemã ZF, famosa por seus câmbios automáticos, está focando seus investimentos em tecnologias de segurança para carros autônomos e semi-autônomos

Outros fornecedores desenvolvem por conta própria soluções para os carros do futuro, com o objetivo de se tornar referência em suas áreas de especialidade. As fabricantes de bancos automotivos Faurecia e Adient já projetam interiores de carros sem motoristas e módulos de transporte (táxis-robô). Empresas americanas do Vale do Silício, como Intel, Qualicomm e Nvidia apostam na Inteligência Artificial para vários setores da economia, inclusive para carros autônomos. Elas serão responsáveis pelas chaves da inteligência artificial, o "cérebro" de silício de um carro autônomo.

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A alemã Bosch vai além. Ela vai exibir em janeiro, na CES de Las Vegas, alguns elementos de suas “cidades inteligentes”, como monitoramento da qualidade do ar, estacionamento conectado, gerenciamento de frotas e estações de carregamento de veículos elétricos.

Bosch é a fabricante que mais investe na internet das coisas, tecnologias que conectarão os carros a tudo o que estiver à sua volta nas cidades e estradas
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Bosch é a fabricante que mais investe na internet das coisas, tecnologias que conectarão os carros a tudo o que estiver à sua volta nas cidades e estradas

Ela pretende fornecer sensores, software e serviços para que tudo aconteça nessas cidades conectadas. Parece ficção científica? Pois saiba que esta tradicional fornecedora de ferramentas caseiras e itens eletrônicos já assinou acordos para fazer projetos-piloto em cinco cidades da Ásia, Alemanha e EUA.

Eis um bom exemplo entre os fornecedores que nasceram como coadjuvantes e já caminham para o protagonismo. As políticas de compras tradicionais ficarão no passado, pois os fabricantes de automóveis não vão mais ditar as regras do jogo sozinhas. Eles não poderão simplesmente comprar chips de alta complexidade e conectá-los nos carros. Os projetos terão de ser desenvolvidos lado a lado com essa nova casta de poderosos fornecedores. Alguns deles com poder de barganha até maior que o das montadoras.

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