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Tecnologia permite usar 30 litros de etanol para rodar 600 km. Entenda como funciona a Nissan NV200 SOFC e como ela muda os carros elétricos

Com 30 litros de etanol, a Nissan  NV200 SOFC pode rodar por mais de 600 km, emitindo uma quantidade mínima de CO2
Nicolas Tavares/iG Carros
Com 30 litros de etanol, a Nissan NV200 SOFC pode rodar por mais de 600 km, emitindo uma quantidade mínima de CO2

Uma das grandes dificuldades dos carros elétricos, principalmente em países sem estrutura especial como o Brasil, é seu tempo de recarga. Apesar da autonomia desses veículos ter crescido muito nos últimos anos, na hora de plugar na tomada, leva horas para que alcance 90% da carga. A Nissan aposta em um sistema que usa o etanol para gerar energia sem combustão, como se fosse uma pilha, permitindo um carro rodar por 600 km com 30 litros de combustível.

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Em testes desde agosto de 2016, o Nissan  NV200 SOFC é um protótipo que utiliza esta tecnologia. A marca trouxe duas unidades elétricas da van NV200 e adaptou para experimentar o sistema, rodando exclusivamente no País. “Sem postos de recarga rápida para elétricos, usar etanol é uma alternativa, pois todos os postos de combustível do Brasil vendem etanol, o que facilita os testes”, afirma Ricardo Abe, gerente de engenharia da fabricante.

O etanol é aquecido e a reação química fornece energia para as baterias do carro elétrico
Divulgação/Nissan
O etanol é aquecido e a reação química fornece energia para as baterias do carro elétrico

O sistema é relativamente simples. O etanol é misturado com água e aquecido em um reformador. Isso causa uma reação que separa os átomos de hidrogênio, deixando uma pequena quantidade de CO2. O H2 vai para a célula de combustível de óxido sólido, gerando eletricidade ao ser misturado com o oxigênio do ar e liberando vapor de água e o CO2 criado anteriormente na atmosfera. “A quantidade de CO2 da reação é tão baixa que será absorvida pela cana usada para fazer etanol”, explica Abe.

Com as baterias abastecidas, a energia é transmitida até o motor elétrico posicionado na frente do veículo. O conjunto mecânico é o mesmo do Nissan Leaf, hatch elétrico vendido nos EUA e na Europa. O pequeno motor gera 109 cv e 28,5 kgfm, torque o suficiente para mover a van com facilidade – lembrando que motores elétricos entregam torque instantaneamente, ao contrário de carros a combustão que precisam aumentar as rotações até alcançar os 90% (por volta de 2.500 rpm).

Esta tecnologia resolve diversos problemas dos automóveis movidos a hidrogênio, que é caro para produzir e altamente explosivo, demandando um alto investimento não só para gerar o combustível, como também para armazená-lo de forma segura. O etanol é mais fácil de se lidar, é utilizado em diversos países (seja da cana ou do milho) e pode utilizar a estrutura atual de postos de combustível. O custo comparativo por quilômetro rodado é bem próximo do carro elétrico, de R$ 0,10/km, contra os R$ 0,09/km dos EV. Um veículo a gasolina gasta R$ 0,30/km.

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É o futuro?

Todo o conjunto que gera energia para as baterias pesa 250 kg e ocupa boa parte do porta-malas da van
Divulgação/Nissan
Todo o conjunto que gera energia para as baterias pesa 250 kg e ocupa boa parte do porta-malas da van

Todo o conceito é bem interessante e gerou muita curiosidade entre os jornalistas do setor automotivo. A Nissan está mandando os carros para os engenheiros no Japão analisarem e realizarem testes (uma das vans, a que rodou mais tempo no Brasil, já foi para o oriente). Antes de despachar a outra unidade, aproveitaram para mostrar o modelo e dar a oportunidade de dirigir um pouco.

Foi um contato muito breve, dando duas voltas pela Praça Charles Miller, o famoso espaço em frente ao Estádio do Pacaembu (São Paulo). Se não fossem pelos adesivos na carroceria, ninguém perceberia que é um protótipo (exceto por ser uma van que não é vendida por aqui). Só iremos perceber a diferença ao abrir o porta-malas, onde está o reformador, as baterias e as células de combustível.

Ao olhar para a tecnologia instalada no carro, fica claro porque a NV200 foi escolhida. Os equipamentos pesam cerca de 250 kg, ocupam todo o assoalho do porta-malas e tem um palmo e meio de altura – ou seja, não caberia em nenhum outro carro de passeio. Como é um período de testes da tecnologia, não se preocuparam em reduzir seu tamanho, o que só acontecerá quando comprovarem que é viável.

Logo chegou minha vez. É uma NV200 normal em praticamente tudo. A cabine não teve nenhuma alteração além das que já são realizadas para a versão elétrica da van. O motor está ligado, mas não parece, pelo completo silêncio. A transmissão, como em outros carros “verdes”, tem a posição D para dirigir e a B, que regenera a energia das frenagens para recarregar as baterias.

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Começo a guiar e piso fundo. O torque, entregue na hora, faz a van acelerar com vigor. Não é nenhuma surpresa, pois é o mesmo que utilizar a versão elétrica da NV200 com um pouco de carga no porta-malas. Como não há combustão alguma, a reação química não faz nenhum barulho, então os únicos sons são da roda no asfalto e do carro cortando o vento. Com 30 litros de etanol no tanque, poderia continuar rodando por 600 quilômetros, ou até mais, caso ativasse o modo de recuperação de energia por frenagem.

Foram duas voltas no futuro. A tecnologia não é nova, sendo utilizada em geradores, mas é a primeira aplicação em um carro. Há um longo caminho até que seja viável. Precisam ter certeza de sua durabilidade, reduzir o tamanho do sistema para caber em carros menores, alcançar um bom custo para produzir e encontrar uma forma de diluir o gasto com a pesquisa. Se depender da Nissan, este será o substituto dos carros a combustão. 

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