Ação contra PCC revela uso excessivo de metanol em combustíveis

ANP limita a presença do químico na gasolina ou etanol em 0,5% no Brasil

Abastecimento de veículo
Foto: Reprodução/FreePik
Abastecimento de veículo

A megaoperação Carbono Oculto , deflagrada na nessa quinta-feira (28), teve como objetivo desarticular um esquema bilionário no setor de combustíveis .  Segundo as investigações, a facção PCC (Primeiro Comando da Capital) buscava a participação na economia formal por meio da administração de uma rede de postos de combustíveis.

Entre as irregularidades, chamou atenção das autoridades o uso de metanol em níveis até 180 vezes acima do permitido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Brasil (ANP), que autoriza no máximo 0,5% . Em alguns postos , o índice chegou a 90%

Metanol

Abastecimento de automóvel
Foto: Reprodução/Agência Brasil/José Cruz
Abastecimento de automóvel


O metanol é um álcool simples também conhecido como álcool metílico . Segundo o químico Christian Blenke, o metanol é "extremamente tóxico para os humanos, podendo causar inclusive cegueira" .

É um líquido incolor, inflamável e altamente tóxico , usado principalmente como solvente industrial, na produção de plásticos, tintas, resinas e também como insumo químico. 

Blenke destaca que a indústria utiliza o metanol também como precursor do formaldeído, conhecido popularmente como formol, usado para a conservação de peças anatômicas. 

Diferente do etanol , que é obtido da cana-de-açúcar ou milho e pode ser usado como biocombustível, o metanol não é indicado para consumo humano nem para uso direto em veículos comuns .

Vale destacar que o metanol pode ser adicionado à gasolina ou a misturas de combustíveis por razões técnicas, porém em limites muito baixos e controlados . O químico ainda explica que o metanol é justamente utilizado como matéria-prima para a produção de biodiesel , um combustível renovável. 

O metanol tem alto índice de octanas , o que ajuda a evitar a detonação prematura do combustível nos motores, melhorando o desempenho em veículos de alta compressão.

Em alguns processos industriais, pequenas quantidades de metanol podem ser usadas como aditivo para ajustar propriedades químicas ou melhorar a solubilidade de outros componentes .

Além disso, quando usado em concentrações mínimas, o metanol pode contribuir para a combustão mais completa de hidrocarbonetos, reduzindo as emissões de monóxido de carbono e de hidrocarbonetos não queimados.

No Brasil, no entanto, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabelece que o limite máximo de metanol na gasolina ou etanol é de 0,5% por meio da Resolução nº 807/2020 , justamente para evitar adulterações. 

Essa pequena margem pode ocorrer de forma residual em processos industriais, mas níveis acima disso são ilegais.




Riscos para os veículos

Foto: Reprodução/Agência Brasil/Marcello Casal Jr.
Carros


Nos motores dos veículos, o excesso de metanol acelera a corrosão de peças metálicas e provoca o  ressecamento de componentes plásticos e de borracha.  

Isso compromete a bomba de combustível , a tubulação e até o sistema de injeção eletrônica , reduzindo a vida útil do automóvel e podendo causar pane repentina. 

"É importante destacar que o motor do carro não foi projetado para queimar metanol, sobretudo em grandes quantidades" , alerta Blenke. 

Do ponto de vista do desempenho, a presença elevada do metanol reduz a energia liberada na combustão . Com isso, o carro exerce uma menor  eficiência e, ao mesmo tempo, consome ainda mais combustível .

Segundo o químico, a grande quantidade de metanol

"Causa a diminuição da potência, tendo em vista que ele queima com uma temperatura menor. Com isso, a expansão dos gases acontece de uma forma mais contida"
Se o carro tem injeção eletrônica e é de combustível duplo, o flex, ele acaba tentando compensar isso injetando mais combustível, o que aumenta o consumo" , acrescenta Blenke.

O especialista destaca que em carros que o motor é exclusivamente a gasolina: 

"Pode causar inúmeros problemas, sobretudo a corrosão no sistema de injeção de combustível do motor"
.

Ou seja, o bolso do proprietário deverá estar preparado para gastos de manutenção repentina.

Além da toxicidade, o transporte irregular de metanol aumenta a probabilidade de acidentes graves. Como se trata de um líquido altamente inflamável, pode acabar provocando  incêndios e explosões se não for manuseado em condições controladas.

O impacto ambiental é outro fator de alerta, tendo em vista que vazamentos ou o descarte inadequado contaminam o solo e lençóis freáticos.