
A Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), está desenvolvendo o MobiCrowd, iniciativa voltada para enfrentar desafios cotidianos da mobilidade nos grandes centros urbanos.
O projeto busca reduzir problemas como congestionamentos, emissão de poluentes e a ineficiência do transporte. Para isso, propõe um sistema de recompensas a motoristas, que ao compartilharem dados de seus veículos contribuem para a criação de serviços de mobilidade urbana e sustentabilidade.
Trata-se de um sistema inteligente de transporte baseado em crowdsourcing de dados veiculares, ou seja, a coleta de informações sobre os veículos e seu uso, por meio de colaboração voluntária de motoristas, integrando comunicação 5G, tecnologia blockchain para monetização dos motoristas e modelos de inteligência artificial.
De acordo com Raphael Machado, professor do Departamento de Computação da UFF e coordenador do projeto MobiCrowd, durante três anos, o projeto buscou a criação de uma infraestrutura de coleta e análise de dados para avaliar comportamento de motoristas, eficiência energética, riscos de condução e oferecer soluções escaláveis para mobilidade urbana sustentável.
"Os dados veiculares analisados incluem uma gama de informações derivadas de sensores do próprio veículo combinados com sensores de um smartphone, como, por exemplo, velocidade, rotação do motor, posição do pedal do acelerador, consumo de combustível, GPS, aceleração e comportamento de condução", explica Machado.
Coleta de dados
A coleta é realizada predominantemente por meio de um scanner OBD-II, uma ferramenta eletrônica conectada à porta de diagnóstico do veículo.
Essa porta de diagnóstico, geralmente localizada próxima ao volante, permite que o scanner se comunique com o sistema eletrônico do veículo para ler informações fornecidas sobre o funcionamento do motor e outros sistemas internos.
"Atualmente, temos coletado dados exclusivamente com motoristas voluntários do próprio grupo de pesquisa. Mas, algumas ferramentas já nos permitem oferecer as ferramentas de coleta de dados a voluntários que queiram participar e contribuir com o projeto" , afirma.
Na prática
A tecnologia que esta sendo desenvolvida na UFF possibilitará a análise de dados de fluxo, a identificação de congestionamentos e de problemas no trânsito em tempo real.
Dessa forma, é possível redirecionar o tráfego de veículos para outras rotas alternativas quando é detectado congestionamento, acidente ou qualquer tipo de obstáculo na via principal.
A análise de dados permitirá também, entre outras análises, uma estimativa de emissões contínua de CO₂, por trajeto, e incentivos via créditos de carbono.
São medidas que poderão colaborar efetivamente com a elaboração de políticas públicas de mobilidade urbana, segundo os pesquisadores envolvidos.
Sistema de monetização
O coordenador do projeto destaca que a ideia é permitir que esses dados veiculares em blockchain sejam vinculados a um sistema de recompensas para o condutor.
Partindo desta iniciativa, segundo ele, diferentes modelos de negócio podem ser propostos.
Atualmente, o grupo trabalha com três ideias: recompensa dos condutores com base em engajamento, em uma estratégia similar a um marketplace de dados veiculares; recompensa dos condutores com base em condução segura, atribuindo criptocréditos àqueles que adotam atitudes responsáveis ao volante, e recompensa dos condutores por meio de créditos de carbono, estimados a partir de metas de eficiência energética e emissões.
"Dentro desses modelos de recompensa, o condutor poderia aderir àquele que lhe interesse, recebendo as recompensas de forma proporcional ao valor dos dados compartilhados. Como o registro é feito em blockchain, todo o processo se torna transparente e auditável, além de permitir ao condutor a livre negociação de suas recompensas com outros participantes da plataforma", explica.
Potencial de novos negócios
O professor Machado ressalta que, atualmente, o projeto se encontra em uma fase de reestruturação, em busca de novos patrocinadores que tenham interesse em investir nas ideias e tecnologias e, assim, levá-las a uma escala de produção efetiva.
E, segundo ele, o potencial da plataforma em relação à geração de novos negócios está diretamente relacionado ao valor intrínseco dos dados compartilhados.
"Seguradoras de veículos têm todo interesse em ter em sua carteira motoristas que conduzem o veículo de forma responsável, dado que estes implicam em um risco muito menor de sinistros. Dessa forma, é esperado que essas seguradoras participem da plataforma, oferecendo descontos a condutores em troca de criptocréditos recebidos como recompensa por uma prática de direção segura" , exemplifica o pesquisador.
Ele também aponta possibilidade de novos negócios quando avalia o modelo de geração de créditos de carbono.
"Há muitas empresas e instituições que se preocupam em incentivar a redução de emissões ou mesmo que precisam comprar créditos no mercado para reduzir sua pegada de carbono. Novamente, essas empresas tornam-se interessadas em potencial na aquisição dos criptocréditos aferidos por condutores que participam da plataforma de monetização", contextualiza.
Investimentos
Até o momento, considerando todas as captações associadas ao Mobicrowd, incluindo outros subprojetos que derivaram dele, já foram investidos R$ 2 milhões no projeto da UFF, com recursos oriundos de agências como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro( FAPERJ), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (FUNDEP/Programa MOVER).
"Mas, entendemos que há espaço para mais investimentos e por isso continuamos ativamente em busca de financiamento e patrocínio que nos permitam amadurecer e escalar as ideias e tecnologias desenvolvidas durante o projeto", salienta.
O coordenador do Mobicrowd diz ainda que, neste momento, o projeto pode ser visto como uma “caixa de ferramentas”, caracterizado como uma coleção de tecnologias que podem ser combinadas para oferecer diferentes serviços e funcionalidades.
"Algumas das nossas ferramentas já estão suficientemente maduras para serem direcionadas ao mercado de forma imediata, sendo que para isso buscamos parceria com empresas e investidores. Outras tecnologias ainda são embrionárias e devem demandar um pouco mais de tempo para estarem suficientemente maduras a ponto de serem oferecidas de forma aberta aos interessados", detalha.
Diante disso, a estimativa do grupo de pesquisadores é ter as principais propostas do projeto disponíveis para processos de transferência de tecnologia em implementação por startups em até 2 anos.