Carro de praia é ruim? Veja mitos e verdades sobre a maresia

Exposição prolongada ao ar salino acelera desgaste, mas histórico de uso e manutenção pesa mais do que a origem do veículo

Carro na praia exige cuidados especiais
Foto: Divulgação
Carro na praia exige cuidados especiais

A expansão do mercado de carros usados e seminovos tem levado compradores a ampliar o raio de busca por veículos, incluindo modelos vindos de cidades litorâneas. Com isso, um tema antigo voltou ao centro das negociações: até que ponto a maresia deve pesar na decisão de compra e na formação do preço de um carro usado?

Em um cenário de alta demanda e oferta diversificada, veículos do litoral deixaram de ser automaticamente descartados, mas seguem cercados de dúvidas. Entender o que é mito e o que realmente compromete o carro passou a ser decisivo para evitar prejuízo e fazer uma compra segura.

Nem todo carro do litoral é ruim

A ideia de que um carro de cidade litorânea é automaticamente um mau negócio não se sustenta tecnicamente. A procedência geográfica, sozinha, diz pouco sobre o estado real do veículo. O que pesa é a combinação entre tempo de exposição, cuidados ao longo dos anos, local onde o carro era guardado e histórico de manutenção.

Um veículo que viveu perto do mar, mas permaneceu a maior parte do tempo em garagem fechada e passou por lavagens regulares, pode estar em melhor estado do que outro utilizado de forma intensa em regiões do interior com estradas de terra, lama e pouca pavimentação, onde poeira, barro e umidade constante aceleram o desgaste mecânico e estrutural quando não há manutenção adequada.

A maresia age devagar, mas não perdoa descuidos

A maresia não destrói um carro em poucos meses, como muitos acreditam. Trata-se de um processo cumulativo. Microcristais de sal presentes no ar se depositam em superfícies metálicas e aceleram a oxidação ao longo do tempo, especialmente quando combinados com alta umidade.

Estudos acadêmicos recentes ajudam a dimensionar esse efeito. Pesquisas conduzidas pela University of Manchester e pela Chalmers University of Technology, publicadas entre 2019 e 2023, mostram que o fator mais crítico não é apenas a proximidade do mar, mas o tempo de exposição contínua ao ambiente salino sem proteção adequada. Segundo esses trabalhos, a corrosão atmosférica se intensifica quando há exposição prolongada sem limpeza, lubrificação e barreiras protetoras.

Onde a maresia realmente deixa marcas

Os efeitos mais comuns aparecem em peças metálicas expostas. Parafusos, dobradiças, torres de amortecedor, suportes de suspensão e escapamento costumam ser os primeiros a apresentar sinais de oxidação. Conectores elétricos e terminais de bateria também podem sofrer corrosão ao longo do tempo.

A pintura tende a perder brilho mais rapidamente, sobretudo em áreas horizontais como teto e capô. Em contrapartida, motor e câmbio não são afetados diretamente pela maresia. O problema está nas partes externas e nos pontos onde o metal fica exposto ao ar salino.

Usado sofre mais do que seminovo

O fator tempo pesa mais do que a simples localização. Um carro com dez ou quinze anos de uso no litoral, sem manutenção preventiva adequada, tende a apresentar mais sinais de corrosão do que um seminovo que viveu na mesma região por período curto.

Por isso, o mercado costuma olhar com mais cautela para usados antigos de cidades praianas, enquanto seminovos, quando bem avaliados, não carregam o mesmo estigma técnico.

Vale menos só por ter vindo da praia?

A origem litorânea, por si só, não deveria justificar desvalorização automática. Preço de carro usado segue sendo definido por estado geral, quilometragem, histórico de manutenção e registros de sinistros. Um veículo bem cuidado, com revisões comprovadas e estrutura preservada, pode ter valor equivalente ao de outro da mesma idade vindo de outra região.

Para quem mora no litoral: como preservar o carro

Quem vive em regiões costeiras pode reduzir bastante os efeitos da maresia com cuidados simples. Lavagens regulares, inclusive da parte inferior do veículo, ajudam a remover resíduos de sal. Polimento e aplicação de proteção na pintura criam uma barreira adicional contra agentes corrosivos. Manter o carro em garagem coberta e lubrificar periodicamente dobradiças e fechaduras também faz diferença ao longo dos anos.

Inspeções periódicas na suspensão e atenção às coifas de proteção evitam que areia e umidade comprometam componentes mais sensíveis.


Para quem pensa em comprar: o que verificar

Ao avaliar um carro que viveu no litoral, alguns pontos merecem atenção redobrada. Sinais de ferrugem em parafusos, início de corrosão em para-lamas, oxidação em terminais elétricos e desgaste excessivo do escapamento indicam exposição prolongada sem cuidados adequados.

Além da inspeção visual, uma avaliação mecânica detalhada é indispensável. Laudos cautelares ajudam, mas uma análise independente pode revelar problemas que passam despercebidos em avaliações mais superficiais. Existem empresas especializadas em inspeção pré-compra que verificam estrutura, histórico de colisões, funcionamento mecânico, eletrônica e situação documental do veículo.