Toyota Supra
Divulgação
Toyota Supra

Por muito tempo, a Toyota foi vista como uma fabricante extremamente competente, mas que produzia carros… sem graça. Os modelos da marca eram reconhecidos pela confiabilidade, pela eficiência e pela durabilidade quase lendária. Mas raramente apareciam nas listas de veículos feitos para quem realmente gosta de dirigir.

Essa imagem não surgiu por acaso.

Durante os anos 2000 e boa parte da década de 2010, a estratégia da Toyota estava concentrada em três pilares muito claros: eficiência, redução de custos e liderança em tecnologias híbridas.

E, nesse sentido, deu muito certo.

A Toyota se tornou a maior montadora do planeta em volume de vendas. Mas, no meio desse sucesso, algo ficou para trás: o apelo emocional que a marca havia construído décadas antes com modelos como Supra, Celica, MR2 e AE86.

Dentro da própria empresa, essa percepção começou a incomodar.

A virada começou com Akio Toyoda

A mudança ganhou força quando Akio Toyoda, neto do fundador da companhia, assumiu a presidência global da Toyota em 2009.

Akio Toyoda é chairman da Toyota desde 2009
Montagem
Akio Toyoda é chairman da Toyota desde 2009


Diferente de muitos executivos da indústria, Toyoda é um entusiasta declarado de carros . Ele participa de corridas sob o pseudônimo Morizo e sempre defendeu que os carros da Toyota precisavam voltar a ser divertidos.

Ao longo dos anos, repetiu em entrevistas uma frase que acabou se tornando quase um mantra dentro da empresa: ele não queria produzir carros “entediantes”.

Pode parecer apenas um detalhe de discurso corporativo, mas na prática isso desencadeou uma transformação real dentro da engenharia da Toyota.

A partir daquele momento, engenheiros passaram a ter mais liberdade para focar na experiência de condução. Testes em pista voltaram a fazer parte do desenvolvimento dos modelos, e o automobilismo ganhou novamente um papel central dentro da marca.

Gazoo Racing virou o centro dessa nova fase

O principal símbolo dessa mudança foi a expansão da Gazoo Racing, a divisão esportiva da Toyota.

Inicialmente ligada apenas às atividades de competição, a GR passou a influenciar diretamente o desenvolvimento de carros de rua. A lógica era simples: levar para os modelos de produção parte da experiência acumulada nas pistas.

Foi nesse contexto que nasceram alguns dos esportivos mais interessantes da Toyota nos últimos anos, entre eles estão GR Supra, GR86, GR Corolla e GR Yaris.

Cada um com uma proposta diferente, mas todos seguindo a mesma filosofia: carros pensados para quem gosta de dirigir.

O GR Yaris virou o símbolo dessa nova Toyota

Entre os modelos recentes, o GR Yaris talvez seja o exemplo mais radical dessa mudança de mentalidade.

Dianteira do Toyota GR Yaris 2026 destaca entradas de ar ampliadas
Toyota/Divulgação
Dianteira do Toyota GR Yaris 2026 destaca entradas de ar ampliadas


Lançado em 2020, o hatch esportivo foi desenvolvido praticamente como um carro de homologação para o Campeonato Mundial de Rally (WRC). Isso explica por que ele é tão diferente do Yaris convencional vendido em diversos mercados.

O modelo utiliza uma plataforma híbrida, combinando a base do Yaris com elementos estruturais da arquitetura TNGA-C. A carroceria é exclusiva, com três portas, além de uso extensivo de alumínio e fibra de carbono para reduzir peso.

Debaixo do capô está um dos motores mais impressionantes da indústria recente: o G16E-GTS, um 1.6 turbo de três cilindros que entrega cerca de 261 cv e 36,7 kgfm na primeira geração, chegando a 304 cv nas versões mais recentes.

Esse conjunto trabalha com câmbio manual ou automático de seis marchas e o sistema de tração integral GR-Four, que permite variar eletronicamente a distribuição de torque entre os eixos.

O GR Yaris também traz soluções técnicas raras em carros compactos modernos, como diferenciais Torsen nas versões mais completas, suspensão traseira multilink exclusiva (no lugar do eixo de torção do Yaris comum) e um chassi profundamente reforçado.

Com peso em torno de 1.280 kg, o hatch acelera de 0 a 100 km/h em cerca de 5,5 segundos e entrega um comportamento dinâmico extremamente preciso em curvas, características claramente influenciadas pelo desenvolvimento ligado ao rali.

A imprensa automotiva internacional reagiu com entusiasmo. Publicações como Top Gear, Evo e Car and Driver classificaram o GR Yaris como um dos carros mais empolgantes de dirigir lançados na última década, justamente por oferecer algo cada vez mais raro na indústria atual: baixo peso, câmbio manual e foco absoluto na dinâmica ao volante.

Essa nova mentalidade também chegou ao Brasil

Por aqui, o cenário era o mesmo de outros mercados. Modelos como Corolla, Hilux e SW4 viraram referência de robustez, durabilidade e valor de revenda, qualidades que ajudaram a consolidar a imagem da Toyota como uma fabricante segura, previsível e extremamente confiável.

Mas dificilmente empolgante.

A chegada da divisão Gazoo Racing ao mercado brasileiro mudou um pouco esse cenário. Primeiro com o GR Corolla, hatch esportivo de tração integral e mais de 300 cv que, curiosamente, rompe completamente com o perfil conservador associado ao Corolla tradicional.

Evento da Toyota em Interlagos com o GR Corolla
Divulgação/ Rafael Catelan - RF1
Evento da Toyota em Interlagos com o GR Corolla


Agora, com o GR Yaris, a Toyota dá mais um passo nessa direção. O hatch compacto talvez seja o exemplo mais puro da nova filosofia defendida por Akio Toyoda: carros pensados antes de tudo para quem gosta de dirigir.

É claro que nenhum desses modelos deve mudar os números de vendas da Toyota no país. Eles são caros, raros e claramente voltados a um público específico.

Mas talvez nem seja esse o objetivo.

O papel desses carros parece ser outro: recalibrar a percepção da marca, mostrando que por trás da fabricante que domina rankings de confiabilidade e vende milhões de Corollas também existe uma Toyota capaz de construir máquinas extremamente divertidas.

Algo que, até poucos anos atrás, parecia improvável.


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