Representação do sistema de recarga dinâmica por indução, que transfere eletricidade de módulos instalados na pista para um receptor sob o veículo.
Divulgação/Honda
Representação do sistema de recarga dinâmica por indução, que transfere eletricidade de módulos instalados na pista para um receptor sob o veículo.

A Honda está desenvolvendo uma tecnologia capaz de recarregar veículos elétricos enquanto eles circulam por uma estrada, sem necessidade de cabos ou paradas em estações de carregamento. O sistema utiliza equipamentos instalados sob o asfalto para transferir energia diretamente aos automóveis e caminhões em movimento, com potência prevista de até 150 kW em futuras etapas de validação.

O projeto foi anunciado oficialmente pela fabricante japonesa em 5 de outubro e está sendo desenvolvido em parceria com as empresas Taisei Corporation e Taisei Rotec, especializadas em engenharia e infraestrutura. A previsão é iniciar testes em vias públicas japonesas a partir de abril de 2027.

Embora a tecnologia possa atender automóveis de passeio, a Honda pretende concentrar inicialmente sua aplicação no transporte comercial, especialmente em caminhões elétricos que percorrem longas distâncias e precisam reduzir o tempo parado para recarga.

Como funciona a estrada que recarrega carros?

A tecnologia é conhecida como Dynamic Wireless Power Transfer (DWPT), ou transferência dinâmica de energia sem fio. Seu princípio é semelhante ao dos carregadores por indução utilizados em smartphones, mas adaptado para transmitir eletricidade a veículos em movimento.

Sob o pavimento são instalados módulos transmissores, chamados de GA (Ground Assembly), que criam campos magnéticos. Na parte inferior dos veículos, uma unidade receptora VA (Vehicle Assembly) capta essa energia, permitindo sua utilização pelo sistema elétrico e pela bateria.

Ilustração mostra como o sistema desenvolvido pela Honda permitirá recarregar veículos elétricos durante o deslocamento, sem conexão por cabos.
Divulgação/Honda
Ilustração mostra como o sistema desenvolvido pela Honda permitirá recarregar veículos elétricos durante o deslocamento, sem conexão por cabos.

Um dos diferenciais do projeto é a integração da bobina transmissora e do inversor elétrico em uma única unidade. Segundo a Honda, essa configuração é inédita em sistemas de recarga dinâmica e permite simplificar a instalação dos equipamentos.

Unidade receptora instalada na parte inferior do veículo capta a energia transmitida pelos módulos posicionados sob o pavimento.
Divulgação/Honda
Unidade receptora instalada na parte inferior do veículo capta a energia transmitida pelos módulos posicionados sob o pavimento.


Em vez de distribuir eletricidade em corrente alternada por diversos componentes separados, a infraestrutura utiliza uma rede de corrente contínua. Cada módulo realiza a conversão necessária para transmitir energia ao veículo que passa sobre ele.

Módulo transmissor desenvolvido para o sistema de recarga sem fio da Honda, projetado para transferir energia a veículos elétricos em movimento.
Divulgação/Honda
Módulo transmissor desenvolvido para o sistema de recarga sem fio da Honda, projetado para transferir energia a veículos elétricos em movimento.


Potência de até 150 kW é objetivo dos testes

O sistema foi projetado para trabalhar com potências elevadas, necessárias principalmente para veículos pesados. A Honda prevê avaliar a transferência de energia em níveis de até 150 kW, capacidade comparável à potência nominal de muitos carregadores rápidos de corrente contínua.

O desafio está em manter a transferência eficiente durante a passagem dos veículos. Em velocidades rodoviárias, cada receptor permanece por pouquíssimo tempo sobre uma unidade transmissora.

Por isso, a tecnologia precisa responder rapidamente à aproximação do veículo e administrar a passagem sucessiva por diversos módulos instalados ao longo da estrada.

Isso não significa que um automóvel receberá continuamente 150 kW ou que conseguirá recuperar toda a energia consumida em qualquer trajeto. A quantidade de eletricidade transferida dependerá de fatores como velocidade, eficiência do sistema e extensão dos trechos equipados.

Asfalto precisa resistir ao peso dos caminhões

Além da transmissão de energia, o projeto enfrenta um desafio estrutural: instalar equipamentos elétricos sob a pista sem comprometer sua resistência.

A Honda e suas parceiras já realizaram avaliações considerando a circulação de veículos pesados, com massa bruta próxima de 20 toneladas.

A próxima etapa começará no final de 2026, com a construção de uma pista experimental no centro de desenvolvimento da Taisei, em Tamura, no Japão. Os trabalhos incluirão ensaios de durabilidade equivalentes a um milhão de passagens de roda, além de verificações da transferência de energia e de possíveis vazamentos de campos eletromagnéticos.

O desenvolvimento também considera a instalação dos módulos em estradas existentes, utilizando processos de remoção parcial do pavimento para acomodar os equipamentos.

Caminhões elétricos podem ser os maiores beneficiados

A partir do ano fiscal japonês de 2027, iniciado em abril, o projeto avançará para testes na rodovia Tateyama, na província de Chiba, em parceria com a operadora de infraestrutura NEXCO East.

Para o transporte de cargas, uma eventual adoção comercial poderia reduzir a dependência de baterias de grande capacidade e diminuir a frequência das paradas para recarga.

Isso teria consequências importantes para os caminhões elétricos, nos quais o peso e o espaço ocupado pelas baterias influenciam diretamente a capacidade de transporte.

Ainda existem obstáculos relacionados ao custo de implantação, manutenção, padronização dos receptores e eficiência da transferência de energia em condições reais. A Honda também não apresentou um cronograma de comercialização.

Por enquanto, o projeto representa uma alternativa em desenvolvimento para a infraestrutura de recarga, com potencial para complementar os carregadores convencionais em rotas específicas de transporte.


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