O lançamento oficial do Romi-Isetta aconteceu em São Paulo em 5 de setembro de 1956.
Reprodução/CEDOC Fundação Romi
O lançamento oficial do Romi-Isetta aconteceu em São Paulo em 5 de setembro de 1956.

“Moço, é seu?”, pergunta a mãe da menininha, que sussurrava ao seu ouvido pedindo (creio eu) para entrar naquela Romi-Isetta azul e branca para uma foto. Era sim do moço, que talvez tenha calculado em milissegundos o quanto seus pés número 32 poderiam machucar o assoalho, se suas mãozinhas delicadas teriam força para quebrar o engenhoso sistema de abertura da porta e que, caso seu bumbum estivesse sujo por ter sentado na grama, seria fácil limpar o banco, porque afinal o plástico ali instalado servia justamente para proteger o estofado xadrez de bumbuns sujos de grama.

Constatado risco quase zero, acenou simpaticamente para a garotinha, que já sem timidez subiu na Romi-Isetta azul e branca, sorriu para a câmera e desceu. Aproveitando a paciência do dono, pai e mãe repetiram a cena. Daí me pergunto: será que eles tinham noção do que é aquela Romi-Isetta azul e branca?

De relance, ela parecia apenas mais uma entre as cerca de 50 que participavam das comemorações dos 60 anos do modelo na sede da Fundação Romi, na pitoresca Santa Bárbara D’Oeste, interior de São Paulo.

Não havia mesmo como saber da sua importância. Não havia uma placa ao seu lado, uma coroa de flores, um letreiro com luzes de neón dizendo que aquele ali, reverenciem, é o automóvel nacional mais antigo que se tem notícia.

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Rodrigo Mora
Esse Romi-Isetta é de chassis número 5, possivelmente o único sobrevivente dos primeiros modelos produzidos.

Na foto acima, é o que aparece em primeiro lugar na fila durante a carreata de lançamento oficial do carrinho, pelo centro de São Paulo, no dia 5 de setembro de 1956. Tinha, naquele momento, pouco mais de dois meses de vida, pois o primeiro – que ninguém sabe onde está, assim como os seguintes até esse de chassis número 5, aparentemente o único sobrevivente da primeira fornada – havia sido produzido em 30 de junho daquele ano.

Ninguém, nem mesmo seu atual dono, sabe por quais viagens, aventuras, desencontros e despedidas passara aquela Romi-Isetta azul e branca até o destino lhe trair com um abandono em uma garagem qualquer. Ou o quão corajosa foi para enfrentar uma restauração já em idade avançada e quanta paciência teve até que encontrassem os detalhes do seu painel e as peças do seu motor, sempre as partes mais difíceis de se achar quando se trata de Isettas.

Daqui em diante, essa guerreira sessentona, vestida com a dignidade das cores originais, uma das mais doces que um automóvel pode receber, vai encarar tarefas mais singelas, como posar para fotos – tanto faz se ao lado de quem sabe ou não da sua história.

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