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As lições deixadas pelos subcompactos da Fiat e da Volks serão usadas para o sucesso do SUV compacto da Renault

Os ângulos de entrada e saída do Kwid e sua altura mínima do solo são qualidades para convencer o público urbano
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Os ângulos de entrada e saída do Kwid e sua altura mínima do solo são qualidades para convencer o público urbano

Eu poderia citar Marx, Camões ou a Velhinha de Taubaté, mas hoje vou citar a mim mesmo para falar do Renault Kwid. Quando o Fiat Mobi foi lançado, com um barulho que fazia crer que estava reinventando a roda, escrevi na revista Motor Show que as qualidades técnicas do carro não eram compatíveis com seu alto preço e tasquei: “É uma aposta ousada, mas talvez dê certo. Nesse caso, vai ser o triunfo da aparência, da economia de custos e do marketing sobre o avanço tecnológico da indústria”.

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Pois bem. De certa forma aconteceu. Afinal, o ranking de vendas fechado no dia 31 de julho aponta o Mobi em oitavo lugar no geral (29.933 licenciamentos) e o Volkswagen Up! numa discretíssima 16ª posição (20.919). Mais: em junho a Fiat conseguiu emplacar 6.562 Mobi, número que deixou o subcompacto a menos de 1.000 carros da ousada meta inicial (7.500 carros/mês). O que isso tem a ver com o Kwid ? Tudo.

Depois de levar pancada de todos os lados, o Dummy agradece a segurança do Kwid: propaganda eficiente (mas terá que provar)
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Depois de levar pancada de todos os lados, o Dummy agradece a segurança do Kwid: propaganda eficiente (mas terá que provar)

 A Renault teve tempo de observar os erros e acertos das estratégias da Fiat e da Volks nessa categoria. Ao contrário do que eu pensava, o Kwid está na lista de carros de entrada e não de SUVs, embora tenha conseguido certificação do Inmetro para tanto. Melhor assim, pois os verdadeiros concorrentes do pequeno Renault são mesmo o Mobi e o Up!.

Até os marcianos já sabem que o Up! é um carro tecnicamente superior ao Mobi. Isso apesar de o subcompacto da Fiat ter sido o modelo que mais evoluiu desde o seu lançamento (reduziu o preço, ganhou um ótimo motor 3 cilindros e lançou num câmbio automatizado melhorado). Nove entre dez jornalistas automotivos são fãs do Up!, mas ele vende pouco. Culpa dos jornalistas, que não sabem avaliar os carros? Não, culpa da Volks mesmo, que cometeu muitos erros de marketing com o Up!. E culpa, principalmente, do consumidor brasileiro, que valoriza mais a aparência e certos equipamentos do que as qualidades técnicas e a segurança dos carros. Dito e feito:

Os exemplos de Fiat Mobi e VW Up!

O Moby Way parte de R$ 41.260 e não é o carro-chefe do modelo, mas a Fiat pode surpreender com uma versão mais barata
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O Moby Way parte de R$ 41.260 e não é o carro-chefe do modelo, mas a Fiat pode surpreender com uma versão mais barata


“Quando o Mobi foi lançado, muitos duvidaram que o carro da Fiat poderia vender mais que o Up!, da Volkswagen. Mas uma boa campanha de marketing, como sabemos, é capaz de enaltecer certas virtudes. Quanto mais fazer um carro vender mais que o seu concorrente quando seus pontos fortes são mais visíveis (caso do atrevido Mobi perante o Up!, que é mais refinado tecnicamente, porém tem design e acabamento que não empolgam).”

“Que fez a Fiat desde seu lançamento? Não muito além do que fez ao lançá-lo no ar, em todas as mídias possíveis, aquela musiquinha-chiclete (“I like to Mobi-Mobi, I like to Mobi-Mobi”) e, ao perceber que o carro não emplacava, reduziu o preço da versão de entrada.”

“E a Volks, que fez de sua parte? Reposicionou o Up!, mas criou uma verdadeira salada envolvendo versões, motores e câmbio. Ao contrário do Mobi, o Up! tem dois motores flex 1.0: o normal (75/82 cv) e o turbo (101/105 cv). O motor das versões turbinadas é chamado de TSI. A versão que tinha o melhor custo/benefício (Move) ficou restrita ao motor TSI e em seu lugar entrou a série especial Run, baseada na Move com algo a mais. O preço, claro, subiu.”

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O Renault Kwid, ao contrário, tem uma boa publicidade mesmo antes de estrear, oferece ao público o que ele quer (um carro urbano altinho, com cara de SUV) e preços muitos atraentes. Mas, ao contrário do Mobi, deu importância à segurança (tem quatro airbags e dois isofix para cadeirinhas). E, ao contrário do Up, não vai oferecer 15 versões, uma verdadeira salada que ninguém entende, confunde e afasta o consumidor. O Kwid tem apenas três versões e um único motor. O Mobi tem seis versões e dois motores. E o Up!, finalmente, largou mão de algumas (versões duas portas e outras exatamente iguais como Black, Red, White, Run e Speed) e agora tem apenas quatro versões e seis configurações .

O Cross Up custa incríveis R$ 56.350 e é o que a Volkswagen tem para hoje, poisnão está interessada em brigar no preço
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O Cross Up custa incríveis R$ 56.350 e é o que a Volkswagen tem para hoje, poisnão está interessada em brigar no preço

Porém, isso não diz tudo. O Up! nunca foi e nunca será um carro barato. Simplesmente porque essa não é a característica da Volkswagen. O brasileiro ficou com a imagem do Fusca, mas depois dele isso nunca mais existiu. Até o Gol era mais caro, só que vendia. O Up! mais barato custa R$ 37.990 (sem ar- condicionado!) e sua versão “SUV”, o Cross Up!, sai por R$ 56.350. A Fiat, de seu lado, não quer mais saber de vender carros baratos, cansou dessa fama. O Mobi mais em conta parte de R$ 34.210 e sua versão “SUV”, o Mobi Way, custa R$ 41.260. Então, o caminho está aberto para a Renault se estabelecer como a única marca que vende carros bons, bonitos e baratos. O Kwid vai de R$ 29.990 a R$ 39.990.

Com a estratégia publicitária do Mobi e conceitos de qualidade do Up!, o Renault Kwid logo estará nos calcanhares do Ford Ka e do Volkswagen Gol, os dois carros de entrada mais vendidos do país. Mas pode haver reação. Não da Volks, porque suas atenções estarão voltadas para os novíssimos Polo e Virtus, mas sim da Fiat. Não estranhem se a Fiat apresentar um Mobi Way mais em conta para atacar alguns pontos fracos do Kwid topo de linha.

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Finalmente, para vocês não ficarem bravos porque só citei a mim mesmo nessa coluna sobre o Kwid, deixo uma frase do trio Marx/Camões/Velhinha para reflexão e uso conforme a conveniência de cada um: “De tempos em tempos a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” (Karl Marx) “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.” (Luís de Camões). “Eu acredito no governo.” (Velhinha de Taubaté).

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