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A ideia é boa, mas por enquanto não vingou nem no Brasil nem na Índia, apesar da arrancada espetacular em setembro

Renault Kwid aparece ao lado do Incrível Hulk para reforçar a ideia de um subcompacto robusto
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Renault Kwid aparece ao lado do Incrível Hulk para reforçar a ideia de um subcompacto robusto

Dizem que na Copa do Mundo de 1958, depois de ouvir a preleção do técnico Vicente Feola sobre como o ataque brasileiro faria as triangulações entre Pelé, Garrincha, Vavá e Zagalo, para vencer a defesa da URSS, o ingênuo Garrincha perguntou: “Mas, seo Felola, o senhor combinou com os russos?” Essa parábola aplica-se ao projeto do Renault Kwid, lançado na Índia e no Brasil. No papel, uma ideia genial: um carro pequeno, com baixo custo de produção, barato para o público e altinho para enfrentar a buraqueira nas ruas das cidades de dois países em eterno desenvolvimento. Mas, como dizia Garrincha, faltou combinar com os russos.

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O primeiro alerta veio quando o Renault Kwid foi submetido a um teste de impacto na Índia e ficou sem nenhuma estrela. Um vexame que a Renault do Brasil tratou de evitar ao fazer um carro mais robusto e equipado com quatro airbags. Resultado: três estrelas no teste do Latin NCAP. Para reforçar a ideia de um carro robusto, a Renault trocou a encantadora atriz Marina Ruy Barbosa – garota-propaganda da marca – pelo bruto Incrível Hulk. Por uma daquelas tristes coincidências, a história mostrou o contrário.

Não sem antes revelar ao mundo que o “Feola da Renault” estava certo e que não era necessário combinar nem com os indianos nem com os brasileiros. Em setembro, graças a uma campanha de pré-venda muito bem feita, a Renault emplacou incríveis 10.356 unidades do Kwid. Foi o segundo carro mais vendido do mês, perdendo apenas para o agora imbatível Chevrolet Onix.

Mesmo assim, por saber que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, no dia 5 de outubro publiquei o seguinte trecho aqui na minha coluna do iG: “A verdade é que o mercado de carros está mudando muito rapidamente. Muitas pessoas estão preferindo outras formas de mobilidade (como Uber e 99 Pop), além do máximo custo/benefício no dinheiro investido. Quem tiver a melhor estratégia para entender as demandas do consumidor – que deixou de ter um perfil óbvio –, vai ganhar esse jogo. Nesse ponto, o Renault Kwid arrancou bem. Entretanto, para se estabelecer como um novo campeão e não apenas como um ‘cavalo paraguaio’, precisará também quebrar a desconfiança de uma grande parcela de consumidores que acha exagerado chamá-lo de ‘SUV compacto’ e ainda não sabe se sua mecânica é robusta”.

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Por coincidência, logo depois a Renault entrou num inferno astral com o Kwid. As vendas despencaram para 3.926 unidades em outubro, 2.231 em novembro e 2.818 em dezembro. Pior: dos 22.256 Kwid emplacados em 2017, nada menos que 21.802 tiveram que ser chamados para dois recall consecutivos. As vendas sofreram um impacto enorme e o carro passou a ter uma fila de espera de 120 dias. A imagem de carro robusto ruiu e muita publicidade terá de ser feita para recuperar o estrago. Talvez fosse uma boa ideia aposentar o Incrível Hulk e trazer de volta a Marina Ruy Barbosa, pois ela não promete nada, mas agrada.

Renault Kwid e Marina Ruy Barbosa: entre as campanhas publicitárias da marca, a atriz aparecerá apenas ao lado do Captur. Bem que ela poderia voltar!
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Renault Kwid e Marina Ruy Barbosa: entre as campanhas publicitárias da marca, a atriz aparecerá apenas ao lado do Captur. Bem que ela poderia voltar!

Um novo ano começou e o Kwid registrou apenas 3.713 vendas até o Carnaval, sendo 2.729 em janeiro. Claro que a Renault fez sua lição de casa e agora já está conseguindo entregar o carro com cerca de 20 dias após o pedido na concessionária, dependendo da cor. Aos poucos, acredito que a Renault vai achar o rumo para o Kwid. Poirém, não acredito mais que será um assombro de vendas, como eu imaginei e provavelmente o “Feola da Renault” também. E digo isso porque fui investigar como estão as vendas do Kwid na Índia.

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Como se sabe, o mercado indiano é muito parecido com o brasileiro, só que bem maior. Em 2017, a Índia vendeu 3,2 milhões de carros. O Brasil já esteve nesse patamar, mas no ano passado vendeu 2,1 milhões, devido à crise. Em janeiro, a Maruti, marca líder do mercado indiano, emplacou 139 mil carros; no Brasil, a Chevrolet licenciou 33 mil e isso foi suficiente para mantê-la na primeira posição. Já a Renault indiana vendeu apenas 6 mil carros em janeiro, enquanto a Renault brasileira licenciou pouco mais de 11 mil.

Quem dá as cartas?

O Kwid passa por dificuldades até mesmo na Índia, onde a Renault emplacou apenas 6 mil carros em janeiro
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O Kwid passa por dificuldades até mesmo na Índia, onde a Renault emplacou apenas 6 mil carros em janeiro

Quanto aos modelos, os números de venda dos líderes são mais parecidos – e isso explica minha tese. Na Índia, o carro mais vendido em janeiro foi o Maruti Dzire, com 22.540 emplacamentos; no Brasil, foi o Chevrolet Onix, com 16.058. E o Kwid? Como aparece no ranking? No Brasil, como dissemos, ele registrou apenas 2.729 unidades, ocupando uma discretíssima 21ª posição. Na Índia, onde leva um ano de vantagem no mercado, as vendas são maiores (5.590 unidades em janeiro), mas a posição é igualmente discreta (18º lugar). Em dezembro, havia sido melhor, com a 11ª colocação e 19,3% a mais de vendas, segundo a consultoria Focus2Move.

A verdade, meus amigos, é que o “Kwidão da Massa” ainda não emplacou. Se num mercado muito maior (e menos exigente) como o indiano ele patina, no Brasil não deverá ser diferente. Talvez seja cedo para colocá-lo como carta fora do baralho na lista dos carros que lutarão no futuro para tirar a liderança do Chevrolet Onix, mas essa é uma resposta que só a Renault pode nos dar. Dessa vez, porém, convém combinar antes – se não com os russos ou com os indianos, pelo menos com os brasileiros. Particularmente, torço para que a Renault encontre um bom caminho para o Kwid, pois tenho simpatia pela proposta do carro.

Garrincha no jogo Brasil 3 x 0 URSS, na Copa do Mundo de 1958. Antes do jogo ele perguntou ao técnico: “O senhor combinou com os russos?”
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Garrincha no jogo Brasil 3 x 0 URSS, na Copa do Mundo de 1958. Antes do jogo ele perguntou ao técnico: “O senhor combinou com os russos?”



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