A ousadia do Uni-T
Eduardo Rocha
A ousadia do Uni-T

OVNI sobre rodas

Changan Uni-T chega com design ousado, ótima dinâmica e tecnologia flex

com Jorge Beher

Autocosmos.com/Chile

Exclusivo no Brasil para Auto Press

Na China, a produção do SUV médio Uni-T está em queda livre. Não se trata, porém, de nenhuma crise. Acontece que a Changan decidiu direcionar para o mercado interno o SUV médio híbrido Uni-Z e internacionalizar a produção do Uni-T. Com isso, a marca passou a exportar as peças para montagens em CKD em países como Paquistão, Cazaquistão, Tailândia, Egito e agora Brasil. Por aqui, a marca chinesa se associou ao Grupo Caoa, que passa a montar, ainda em março, o SUV lado a lado com modelos da Chery, em Anápolis, Goiás. O preço deve orbitar em torno dos R$ 180 mil e desafiar modelos como Jeep Compass, Toyota Corolla Cross e até o Caoa Chery Tiggo 7. O plano é que até o final de 2026 sejam abertas 50 concessionárias Changan no país.

Antes de desembarcar no Brasil, porém, os engenheiros das duas empresas trataram de adaptar o SUV aos requisitos do mercado local. Ou seja: o Uni-T já chega com motorização flex. Ele será embalado por um propulsor 1.5 turbo refinado juntamente com a engenharia brasileira. Ele rende 180 cv e 30,6 kgfm, tanto com gasolina quanto com etanol, e é gerenciado por um câmbio DCT de sete marchas, banhado a óleo e produzido pela Aisin. A estimativa é que acelere de zero a 100 km/h em torno de 8 segundos. Trata-se do modelo inaugural da família Uni, cujo desenvolvimento foi voltado para mercados mais exigentes.

O Uni-T é um daqueles carros que só é possível dimensionar quando é visto de perto. É fácil intuir como será um Volkswagen, um Toyota ou um Chevrolet, mas a indústria chinesa mantém a capacidade de causar admiração. O design, ousado e original, traz uma silhueta aerodinâmica, que o aproxima muito dos crossovers cupês. Já as dimensões são maiores do que parecem: tem 4,51 m de comprimento, 1,87 m de largura e 1,56 m de altura. O entre-eixos é bem generoso, com 2,71 m, e o espaço é dedicado principalmente aos ocupantes. Tanto que o porta-malas é de pequeno para o segmento, com apenas 350 litros.

No interior, o Uni-T mantém a aposta em um design futurista e minimalista. Os materiais e a decoração valorizam a impressão de qualidade. Embora seja impossível constatar a resistência de qualquer carro sem ser o real proprietário, o SUV não parece frágil. Além disso, como tem formatos simples, o número de elementos que podem se quebrar são reduzidos. Todo o design é orientado para o motorista e o ambiente é dominado pelo painel curvo com duas telas de 10,3 polegadas, uma para o painel de instrumentos e a outra para a central multimídia.

Há muitos detalhes que demonstram que é um projeto bem-pensado, como a posição das portas USB na bandeja de carregamento sem fio, as luzes de led no teto ou as partes coloridas em alumínio que correm ao longo do controle climático e do console central. A alavanca de câmbio tem um design plano que é inovador, mas tem usabilidade complicada. No mais, prevalece um estilo sóbrio. Um detalhe curioso é a pequena cúpula iluminada na parte superior do console frontal, que se assemelha a um smart speaker (como o Apple HomePod ou Amazon Alexa), que emite sinais luminosos e faz parte do sistema de reconhecimento de voz com inteligência artificial.

Em relação à lista de equipamentos, além dos itens comuns ao segmento de SUVs/Crossovers médios, o Uni-T avaliado trazia ar-condicionado com purificador, teto panorâmico, sistema de iluminação full led, carregador sem fio e chave presencial. Em relação à segurança, o modelo obteve cinco estrelas no C-NCap e tem um pacote ADAS com controle de cruzeiro adaptativo, monitor de ponto cego e de tráfego traseiro cruzado, frenagem autônoma de emergência, assistente de saída de faixa capaz de fazer curvas um pouco mais íngremes do que em outros sistemas.

A estrela entre as tecnologias, no entanto, é o sistema autônomo de estacionamento APA 5.0. Ele é capaz de estacionar completamente sozinho, sem intervenção. O motorista pode descer do veículo e assistir de fora enquanto o Uni-T estaciona perfeitamente. Os sensores evitam que o carro colida com pessoas e/ou objetos que interrompam a manobra. Em muitas circunstâncias, é mais fácil estacionar manualmente, mas ver um carro estacionando, completamente sozinho e sem intervenção humana, é um espetáculo que vale a pena ver.

A lógica da Caoa nessa operação é se calçar em relação a uma possível perda da representação da marca Chery, pois o grupo chinês tem mostrado interesse crescente no mercado brasileiro, onde já atua com as marcas Omoda, Jaecoo e Jetour, além de preparar a chegada da Exeed. Já a lógica das marcas chinesas em focar no mercado brasileiro, asiático e africano é uma reação aos bloqueios ao mercado dos produtos feitos na China impostos pelo Norte Global (Estados Unidos, Europa, Japão etc). E o Uni-T foi o produto escolhido pela Caoa para possivelmente herdar a ótima fatia de mercado que hoje pertence ao agora rival interno Chery Tiggo 7, que emplacou mais de 38 mil unidades em 2025.

Primeiras impressões

Equilíbrio de forças

Embora, por design, o Uni-T se aproxime de um carro elétrico, a verdade é que ele utiliza um motor 1.5 turbo com injeção direta e comando variável, homologado para o padrão Euro 6b. A unidade avaliada era destinada ao mercado chileno e desenvolve 179 cv de potência e 30,6 kgfm de torque – apenas 1 cv a menos que a versão flex. O propulsor é associado a uma caixa automática de dupla embreagem de sete marchas, com três modos de condução. Sem ser uma transmissão espetacular, ela é eficaz, suave e reativa, fazendo os 179 cv parecerem mais presentes e não deixando transparecer qualquer turbo lag.

O mais notável sobre o Uni-T é o comportamento do chassi. É um dos melhores carros chineses que pude testar até o momento, no que diz respeito ao desenvolvimento dinâmico. Isso é perceptível em vários detalhes que são evidentes em carros de novas marcas em comparação às que vêm oferecendo uma experiência de direção polida há bastante tempo.

A frenagem é muito equilibrada, a suspensão oferece uma boa dose de equilíbrio nas curvas e a direção é muito responsiva aos movimentos do volante, com boa progressividade. Mesmo na unidade testada, com rodas de 20 polegadas e pneus de perfil baixo. Um detalhe importante é que o Uni-T é equipado com pneus Continental. Quando uma marca de origem chinesa vem com pneus de um bom fabricante (o que geralmente não acontece), isso também indica maiores aspirações em termos de desempenho, algo que também foi notado aqui.

Apesar de ter vários aspectos elogiáveis, o Changan Uni-T não é o carro perfeito. Não possui comandos físicos para o sistema multimídia, falta modo manual para a caixa de câmbio, a direção poderia ser ajustada um pouco mais e as traduções da interface precisam ser melhoradas, sem falar na ausência de espelhamento por Android Auto ou Apple CarPlay (o que provavelmente será corrigido na versão montada no Brasil).

Por outro lado, trata-se de um modelo verdadeiramente inovador no segmento devido à quantidade de equipamentos que oferece. Um carro com 179 cv, câmbio de dupla embreagem, que estaciona sozinho (caso esse recurso esteja disponível no Brasil) e com um design radicalmente diferente de qualquer carro, não é visto todos os dias.

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