A Toro caipira chique
Eduardo Rocha
A Toro caipira chique

Roda da fortuna

Toro Ranch tem força, aptidão off-road e luxo que ameaçam picapes maiores

por Eduardo Rocha

Auto Press

Depois de 10 anos de mercado, a Fiat Toro ainda não teve um adversário à altura. Em parte, pelo posicionamento de mercado. A picape joga no segmento que no futebol se convencionou chamar de entrelinhas: é maior que as picapes compactas e menor que as médias. Com isso, consegue seduzir tanto o público urbano quanto o rural. Desde seu lançamento, em 2016, a picape da Fiat passou por duas atualizações importantes. A primeira, em 2021, focou no público da cidade: passou por um facelift, ganhou recursos ADAS e ganhou um motor 1.3 turbo a gasolina, com 185 cv. A segunda renovação, na linha 2026, foi direcionada para o consumidor do agro: passou por um novo banho de design e adotou um novo motor turbodiesel, de 200 cv. Nesse contexto, a versão Ranch assume de forma isolada o posto de topo de gama, com preço de R$ 235.490.

Obviamente, o que mais vai chamar a atenção é o novo visual, que adotou um perfil mais agressivo, com linhas geométricas e um conceito mais robusto. A frente ostenta uma nova grade em forma de trapézio com frisos verticais, remetendo ao estilo aplicado no Pulse e no Fastback. A assinatura em led e o DRL são formados agora por segmentos de quadriláteros, simulando pixels. Os faróis full led se mantiveram na parte central do para-choque, que ficou mais proeminente. A traseira traz lanternas com mesmo formato, mas com lentes lisas e luzes em linhas de led e o para-choque com arestas mais marcadas.

Especificamente para a versão Ranch, a placa de proteção inferior, ou skidplate, ficou menor, mas ainda em uma cor contrastante. Há também acabamentos cromados em logos, santantônio, maçanetas, retrovisores, frisos laterais. As rodas de 18 polegadas também têm um novo desenho, mais geométrico. Na parte interna, quase nada muda: apenas traz revestimento dos bancos em marrom mais escuro, que ficou mais elegante. Já o grafismo do painel de instrumentos de 7 polegadas foi renovado.

Mas a mudança que é realmente efetiva ocorreu sob a carroceria, com alterações mecânicas relevantes. A Fiat aproveitou a mudança na motorização induzida pelas normas de emissões exigidas pelo Proconve L8 para adotar a estratégia de nivelar a Toro Ranch às picapes médias, tanto em termos de potência quanto nas capacidades de carga e de off-road. Para atender às, o modelo adotou a versão atualizada do motor turbodiesel Multijet II, que passou de 2.0 para 2.2 litros e ganhou 18% de potência e 29% de torque, indo de 170 para 200 cv e de 35,7 para 45,9 kgfm (ou 450 Nm indicados na sigla TD450).

Apesar do ganho de força, manteve o mesmo nível de consumo, com médias de 10,5 km/l na cidade e 13,1 km/l na estrada, segundo o InMetro. Para chegar a esse resultado, foram promovidas diversas mudanças tanto na transmissão automática de nove marchas quanto no sistema de tração, que tem modos automático sob demanda ou 4WD permanente. Para começar, o câmbio ganhou um conversor de torque maior e um diferencial 14% mais longo, o que reduziu perdas na transmissão e fez o motor trabalhar em rotações mais baixas. Em modo normal, o câmbio sempre usa a 2ª marcha nas arrancadas e reserva a 1ª marcha apenas como uma pseudorreduzida. Além disso, a Toro passou a contar com o Traction Control+, presente nas versões 4X2 a gasolina, em que o ABS ganha a função de frear de forma dosada a roda que girar em falso – o que substitui o bloqueio de diferencial.

Essa leitura bem específica da função de cada versão fez com que a Toro chegasse a números impressionantes em uma década de mercado, com mais de 550 mil unidades emplacadas até agora. Outro motivo para esse desempenho é a política de renovação constante que a Fiat adotou nos últimos anos, com introduções de novidades em intervalos relativamente curtos. Por exemplo: para a linha 2027, está nos planos da montadora dotar o modelo com um sistema híbrido leve de 48V, bem mais efetivo que o de 12V utilizado nos SUVs da marca. Uma segunda geração do modelo está nos planos da montadora para a linha 2030, já com a nova plataforma STLA Medium, no lugar da atual Small Wide (Fotos de Eduardo Rocha, Auto Press).

Ponto a ponto

Desempenho – O Multijet 2.2 mudou para cima o nível da Toro. Com o aumento de quase 10% no curso do pistão, houve um aumento substancial de torque máximo, de 35,7 para 45,9 kgfm, que ainda por cima chega 250 giros mais cedo, às 1.500 rpm. A potência também teve um incremento importante, de 170 para 200 cv, e o resultado foi uma aceleração bem mais vigorosa, com o zero a 100 km/h feito em 9,8 segundos (antes era em 12,2 segundos). Tudo isso colabora também para um melhor desempenho no off-road. O sistema de tração é bem eficiente. Em uso normal, funciona sob demanda, dando preferência às rodas dianteiras, mas pode ser usado com 4X4 permanente e também reduzida, quando recorre a 1ª marcha, que é bem curta. O modelo não tem bloqueio de diferencial, mas passou a contar com o recurso TC+, que usa o ABS para frear as rodas sem aderência, o que ajuda a sair com facilidade de situações embaçadas. Nota 10.

Estabilidade – A Toro 2026 manteve a geometria básica de suspensão, com McPherson na frente e Multilink na traseira, mas com mudanças na carga de molas e pressão dos amortecedores para encarar o aumento de potência e torque. Embora o conjunto tenha ficado um pouco mais rígido, houve um bom trabalho para reduzir ruídos e vibrações. Há um rolamento lateral aceitável nas curvas, mas sempre com bom controle de carroceria, com reações previsíveis. Os pneus de perfil alto – 225/65, com lateral de 14,5 cm – tiram um pouco da precisão da direção, mas nada que não aconteça também com um SUV de mesmo porte. Nota 9.

Interatividade – O volante multifuncional concentra os comandos do controle de cruzeiro, som, telefonia e computador de bordo. Alguns deles são replicados na tela sensível ao toque de sete polegadas da central multimídia Uconnect, juntamente com os recursos de auxílio à condução, opções de travamento e desligamento de faróis, etc. O painel traz diversas opções gráficas de mostradores e a central multimídia, com tela vertical de 10 polegadas, tem conexão wireless com os aplicativos Apple CarPlay e Android Auto. O aplicativo Connect Me oferece funções como ligar ou desligar o motor, travar ou destravar o carro e monitorar a localização. O modelo traz ainda paddle shifters no volante, chave presencial, banco do motorista com regulagem elétrica, sensores dianteiros e traseiros e câmera traseira. Nota 8.

Consumo – A versão Ranch 2.2 4X4 Diesel manteve o mesmo padrão de consumo da motorização 2.0. Segundo o InMetro, esta Toro percorre 10,5 km/l na cidade e 13,1 km/l na estrada – na estrada, consegue índices melhores que os de algumas picapes compactas. A nota também não mudou: A na categoria e D no geral. Na prática, é um veículo econômico pelo que oferece de desempenho, espaço e autonomia, em torno de 750 km. Nota 8.

Conforto –A suspensão tem um bom curso e uma ótima capacidade de filtragem das imperfeições do piso. O que é ótimo para estradas sem pavimento, mas se aplica muito bem também às maltratadas ruas das cidades. Essa capacidade de amenizar os solavancos facilita a vida de quem frequenta áreas rurais. A ergonomia na cabine é muito boa, os bancos são confortáveis e há bom espaço para pernas e cabeça. Já a largura explicita as dimensões da plataforma, que é a mesma do Jeep Compass, que se posiciona no segmento de SUV-C de entrada. Nota 9.

Tecnologia – A Toro Ranch tem equipamentos que buscam colocá-la na condição de topo de linha e faz uma sobreposição com a versão intermediária da picape média Titano – que usa o mesmo conjunto mecânico. Tem sete airbags, sistema multimídia moderno, excelente sistema de tração com comando eletrônico, controles de tração e estabilidade, controle de descida e assistente de partida em rampa. Traz ainda recursos básicos de auxílio à condução, como frenagem autônoma, monitor de faixa, farol alto automático e sensores de luz e chuva. Os modelos chineses, recheados de tecnologia, fazem transparecer a idade do projeto ao deixar de fora recursos como câmera 360º, controle de cruzeiro adaptativo, sensor de ponto cego, etc. Nota 7.

Habitabilidade – A Toro traz diversos nichos no habitáculo que tornam a convivência bastante amigável. Os ajustes elétricos do banco e as regulagens de altura e profundidade do volante permitem que o motorista se acomode de forma apropriada. A altura elevada do modelo cria um pouco de dificuldade para entrar e sair, mas há alças na coluna dianteira e estribo lateral que auxiliam na empreitada. A caçamba, com a tampa dividida, é prática para o carregamento de objetos pequenos. Nota 8.

Acabamento – A Toro Ranch tem materiais de boa qualidade e revestimentos refinados, bem de acordo com a função de uma versão de topo. O carro traz revestimento em couro e vinil, muitos cromados e diversos detalhes que buscam distinguir o carro e emprestar algum requinte. A montagem das peças de acabamento parece sólida e a combinação de marrom e preto segue uma tendência da moda. Nota 8.

Design – A Fiat Toro sempre influenciou o design da gama da marca, mas dessa vez importou dos SUVs Pulse e Fastback os elementos verticais da grade dianteira. No caso específico da versão Ranch, a marca se manteve fiel à estética mais ostensiva, com muitos cromados externos, no estilo que pode ser classificado como Caipira Chique. Transmite com competência as ideias de luxo e de robustez. Nota 7.

Custo/benefício – O preço de R$ 235.490 coloca a Toro Ranch no limite inferior de preços das picapes médias, com tamanho menor, mas com mais mobilidade, mais adequada à cidade, melhor equipada e maior requinte. Como nenhuma marca se voluntariou para criar um adversário relevante em 10 anos, a picape não tem nenhum rival direto em relação ao tamanho e à mobilidade. Nota 7.

Total – A Fiat Toro Ranch TD450 4X4 somou 81 pontos em 100 possíveis.

Impressões ao dirigir

Vantagens competitivas

Embora seja menor – e no mercado agro, tamanho é documento –, a picape média-compacta da Fiat tem uma importante vantagem competitiva: oferece um alto grau de luxo e mobilidade superior ao de picapes médias na mesma faixa de preço. Essa versatilidade, de poder viver bem tanto na cidade quanto na estrada, amplia bastante o público-alvo. No caso da Toro Ranch, vale a pena considerar que mesmo quem vive e trabalha em ambiente rural tem de se aventurar no ambiente urbano de vez em quando, nem que seja para fazer supermercado.

Além dessas vantagens intrínsecas à Toro desde seu projeto, a linha 2026 trouxe novidades que elevaram o padrão do modelo. Além do visual frontal modernizado, o motor é o mais relevante, pois mudou a picape de patamar. São 200 cv, que rendem uma relação peso/potência de 9,7 kg/cv. Ela já era mais leve e mais ágil que as picapes médias, só que agora conta com um motor do mesmo nível das grandonas. Zero a 100 km/h abaixo de 10 segundos mostra a ferocidade do modelo. As acelerações são vigorosas, pois o torque máximo, além de ser 29% maior, chega em uma rotação 15% menor. Ou seja: o turbo lag foi praticamente eliminado.

O sistema de tração também foi incrementado, com a entrada do TC+, que usa o ABS para controlar as rodas que patinam. Esse sistema entra em ação quando a reduzida é acionada. Nesse caso, o controle de estabilidade é desabilitado e o câmbio acessa a 1ª marcha, que tem relação 65% mais curta que a 2ª – em situações normais, a Toro arranca de 2ª. Na prática, no dia a dia, é um câmbio de 8 marchas, com uma marcha específica para situações mais desafiadoras.

Mesmo com esse ganho de força, a Toro manteve a suavidade, tanto na rodagem quanto nas reações. O habitáculo é amplo e confortável, com bom acesso, diversos equipamentos de conforto, como ar-condicionado de duas zonas, chave presencial, sensores dianteiros e traseiros etc. Essa atualização, no entanto, não equiparou a Toro tecnologicamente aos modelos chineses que inundam o mercado brasileiro. Eles tornaram comuns equipamentos como câmera 360º, controle de cruzeiro adaptativo ou sensor de ponto cego. São itens que a Toro teria condições de receber sem maiores dificuldades técnicas – estão presentes no Compass, que tem a mesma arquitetura e plataforma eletrônica –, mas que a Fiat preferiu reservar para uma próxima ocasião.

Ficha Técnica

Fiat Toro Ranch TD450

Motor: Diesel, dianteiro, transversal, 2.184 cm³, sobrealimentado por turbocompressor com intercooler e geometria variável, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, comando duplo no cabeçote. Sistema de injeção direta.

Transmissão: Câmbio automático de nove velocidades (1ª reduzida + 8) à frente e uma a ré. Tração integral sob demanda com modos de 4X4 permanente e 4X4 reduzida. Sistema eletrônico TC+, de limitação de escorregamento das rodas no ABS. Oferece controle de descida.

Potência: 200 cv a 3.500 rpm.

Torque máximo: 45,9 kgfm a 1.500 rpm.

Diâmetro e curso: 83,8 mm X 99 mm.

Taxa de compressão: 15,7:1.

Aceleração 0-100 km/h: 9,8 segundos (com stall speed).

Velocidade máxima: 201 km/h.

Suspensão: Independente nas quatro rodas. Dianteira do tipo McPherson com braços oscilantes inferiores, geometria triangular e barra estabilizadora, amortecedores hidráulicos pressurizados e molas helicoidais. Traseira do tipo multilink, links transversais e laterais, barra estabilizadora, amortecedores de duplo efeito e molas progressivas. Oferece controle eletrônico de estabilidade.

Pneus: 225/60 R18.

Freios: Discos ventilados na frente e atrás. Oferece ABS com EBD.

Carroceria: Picape em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. Comprimento de 4,95 metros com 1,85 m de largura, 1,68 m de altura e 2,98 m de entre-eixos. Ângulo de entrada de 25º, de saída de 28º, de rampa de 21,7º, com altura livre para o solo de 19,8 cm sem carga. Possui airbags frontais, laterais, de cortina e para o joelho do motorista.

Peso: 1.945 kg.

Capacidade da caçamba: 937 litros.

Capacidade de carga: 1.010 kg.

Tanque de combustível: 60 litros.

Lançamento no Brasil: 2016.

Facelift 1: 2021.

Facelift 2: 2025.

Produção: Goiana, Pernambuco.

Preço da versão: R$ 235.490.

Preço da unidade avaliada: R$ 237.980.

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