Maçaneta retrátil é um recurso muito utilizado nos veículos chineses
Fernando Naccari/Portal iG
Maçaneta retrátil é um recurso muito utilizado nos veículos chineses

A China, maior mercado automotivo global, tomou uma decisão que promete provocar efeito em toda a indústria: o país anunciou que não permitirá mais maçanetas totalmente retráteis e elétricas em veículos de passeio vendidos localmente a partir de 1º de janeiro de 2027. A proposta, publicada em um rascunho de norma pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), tem como foco riscos de segurança e falhas de funcionamento em casos de emergências

A motivação principal é clara: em uma série de acidentes documentados no país, ocupantes ficaram impossibilitados de sair ou foram difíceis de resgatar após colisões ou falhas elétricas, justamente porque as maçanetas dependiam exclusivamente de controles eletrônicos e motores para funcionar. Em alguns casos, testemunhas relataram que o mecanismo não liberou a porta após corte total de energia, dificultando a evacuação de vítimas e o trabalho dos socorristas.

Sistema já foi responsabilizado por mortes

Autoridades regulatórias observaram que, em situações em que a energia é interrompida, como em colisões graves ou incêndios, as maçanetas retráteis podem não se mover, deixando as portas inacessíveis. Em testes de segurança citados no relatório, esse tipo de maçaneta eletrônica tem taxa de abertura de cerca de 67% em colisões laterais, contra 98% de sucesso dos sistemas tradicionais mecânicos.

O endurecimento das normas exige que veículos com menos de 3,5 toneladas tenham liberação mecânica obrigatória de portas tanto internamente quanto externamente,  e que pelo menos uma maçaneta interna seja sempre visível e utilizável manualmente em casos de pane elétrica ou danos estruturais graves.

Acidentes impulsionaram o debate

Um dos episódios que intensificou o debate na China foi o caso de um acidente com um  Xiaomi SU7 Ultra, que resultou em um motorista morto em Chengdu. Testemunhas relataram que as portas do veículo não abriram após a batida, impedindo o resgate imediato e gerando críticas à dependência total do sistema elétrico para mecanismos de saída. 

E o episódio não foi isolado. De acordo com reportagem do site chinês Sixth Tone, uma falha semelhante em um veículo com maçaneta retrátil esteve ligada a três mortes na cidade de Tongling, no leste da China.


Consequências para o design automotivo

As maçanetas retráteis se tornaram um símbolo do design moderno em carros elétricos, ajudando a melhorar a aerodinâmica e “limpar” o visual das laterais dos veículos. Porém, os ganhos estéticos e aerodinâmicos foram colocados em xeque, já que estudos indicam um benefício mínimo em eficiência real, e o peso extra dos mecanismos muitas vezes anula parte desse ganho.

A nova regra deve forçar fabricantes chineses e internacionais a repensarem o design dos seus modelos vendidos na China, o que pode ter efeitos globais devido ao peso do mercado chinês na produção automotiva mundial. Marcas locais e estrangeiras começam a considerar soluções que combinem visual atraente com redes de liberação mecânica confiáveis em situações de emergência.

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