No ano da graça do nosso senhor de 1969, enquanto eu assoprava nove velinhas, Armstrong dava um grande passo para a humanidade, Edson Arantes marcava seu milésimo gol e em Woodstock, umas meninas acendiam seus béques usando sutiãs como isqueiro. Bons tempos.

Olhando em retrospectiva, eu não estava nem aí para nada disso. O que fazia minha vida ter um mínimo de sentido era assistir “Perdidos no Espaço”, “National Kid” e “Speed Racer”. Tudo em branco e preto. Com exceção do Corredor X, eu achava o pansexual Speed e sua família um bando de freaks. Fala sério, qual é a do Speed com aquele lencinho vermelho no pescoço? Sempre torcia para que aqueles bandidos de nariz pontudo colocassem um tiro no centro da testa do Speed. Mas esse desenho animado continha um objeto de desejo que me fascinava e fazia minha imaginação entrar em trajetória balística: o Mach 5, a cara de uma Corvette Stingray.

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O Mach 5 era o passaporte para minha liberdade. Se fosse meu, todos os problemas que atormentavam minha infância iriam evaporar: eu não precisaria ir mais para a escola, poderia ver TV até a hora que quisesse e acordar quando bem entendesse. Um sonho impossível de ser realizado, pois o Mach 5 não existia. Mas um dia descobri que o desenho do Mach 5 tinha sido inspirado em um carro de verdade, na Corvette Stingray C3. Um sorriso maligno se instalou na minha imaginação!

Corvette Stingray C3
Revista Car and Driver Brasil
Corvette Stingray C3

Quarenta anos mais tarde o sorriso migrou para minha boca. Hoje tenho o documento de um C3 1977 em meu nome! Sou o homem mais feliz do mundo? Não: sou o moleque mais feliz do mundo. Descobri que bens materiais preenchem o vazio da alma e que dinheiro compra felicidade.

O Mago

Lawrence Kiyoshi Shinoda é um mágico, foi ele quem desenhou a Corvette Stingray C3. Nascido na Califórnia, sua ascendência japonesa lhe garantiu uma estadia forçada no campo de concentração americano de Manzanar durante a Segunda Grande Guerra, pois ele podia ser um espião do Japão (isso realmente aconteceu). Alguns anos após Hiroshima e Nagasaki, Larry acordou meio sem nada para fazer e decidiu desenhar uns carros.

Sua decisão rendeu alguns ícones como a Corvette Stingray 1963, o Mustang Boss 302, o Camaro Z-28, e o Jeep Grand Cherokee. Hummm, nada mal para um “ex-possível-espião” de sua majestade imperial, o imperador Hiroito. A terceira geração da Corvette teve como inspiração as linhas do Mako Shark II, também de Shinoda.

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Corvette Stingray C3
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Corvette Stingray C3

Há uns dois anos um amigo que sabia do meu desejo de ter uma Corvette me ligou dos Estados Unidos e disse: “Achei uma Vette caindo aos pedaços, mas em ótimo estado. Só te liguei para avisar que ela é sua e por enquanto você só me deve US$ 12.500”. Foi uma das frases que mais fizeram sentido em minha vida.

Gato de Lúcifer

Um ano e meio depois e muitos, mas muitos R$ a mais, minha Stingray 1977 estava pronta, reformada como se tivesse saído da linha de montagem naquele minuto.

Desenvolvi uma relação tão intensa com essa Corvette, que comecei a tratá-la do mesmo jeito que uma namorada muito especial que passou pela minha vida há alguns anos. Adoro abri-la, olhá-la por dentro, sentir seu cheiro, entrar nela com calma e tocar em todo seu interior. Depois de curti-la por dentro, saio dela para admirar e passar as minhas mãos pelas incríveis curvas de seu corpo e me assegurar de que quem vai entrar nela novamente sou eu.

No primeiro dia que saí com ela (a Corvette) na rua, tentei agir como se tudo estivesse normal, como se eu tivesse esse carro desde 1977, mas não consegui. Não consigo até hoje. Todo dia, quando desço para a garagem não acredito no que vejo. Após vários e longos passeios madrugada adentro, comecei a me acostumar com a dirigibilidade da minha C3 (se é que se pode dizer que uma C3 tem isso...) e decidi descobrir do que seu motor 350 V8 small block de 210 cv era feito.

Corvette Stingray C3
Revista Car and Driver Brasil
Corvette Stingray C3

Pisei forte e ele rugiu como o gato de Lúcifer, fazendo que a frente do carro levantasse e, sem aderência, derrapasse levemente para a esquerda. Me assegurei que não tinha molhado minha calça e tive o ride of my life. No dia seguinte, liguei para meu amigo (que comprou o carro nos EUA): “Não entendo por que chamam esse motor de small block, o bicho é um animal e, além disso, dá uma conotação de carro de mulherzinha.” Ele respondeu singelamente: “É porque você nunca pisou num big block...”. (Sim, já comecei a reforma de uma C3 1970 454 big block de 525 que ele me comprou há alguns meses).

Borracha líquida

As Corvettes da terceira geração até que têm uma dirigibilidade decente, mas sua aderência ao solo e seus freios não ganharam prêmios de alta performance... Barulho interno, barulho de carroceria, barulho de suspensão, calor na cabine, são características notoriamente ruins de uma C3. Esses problemas são elevados ao cubo se o motor em uso for o potente big block.

Há um debate totalmente estúpido entre os estúpidos debatedores sobre qual é a verdadeira potência de um motor big block. Simples: muito, mas muito mais do que você jamais irá precisar. 

Veja bem, se você procura aceleração violenta e altíssima velocidade considere que: 1) aceleração eficiente é questão de aderência, e a pouca que a C3 possui é 100% anulada por um motor big block; 2) velocidade máxima é uma questão da distribuição da potência com as relações de marcha e da sua capacidade de retenção intestinal.

Corvette Stingray C3
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Corvette Stingray C3

Acredite, seu intestino possui limites bem mais curtos que os de um big block. Então por que se deve instalar um big block numa Vette? Simples, porque ele liquefaz os pneus traseiros em uma arrancada, sem que o carro saia do lugar. 

Aulinha de história

Com a redução da demanda de veículos militares no final da Segunda Guerra, a GM decidiu inventar sua própria guerra e construir uma arma que enfrentasse nada menos do que a onda de importação de esportivos europeus como o Mercedes 300 SL e o Jaguar XK.

O resultado apareceu em 1953 e foi batizado de Corvette por Myron Scott, relações públicas da Chevrolet. Ele tomou emprestado o nome de um veloz barco de ataque da marinha de guerra britânica. De lá para cá já existiram seis gerações de Corvette, designadas informalmente de C1 a C6. Quando a revista Car and Driver recebeu uma Corvette C3 no seu lançamento em 1968, a impressão da qualidade do carro foi tão ruim que a redação se recusou a testá-la.

Durante os 15 anos seguintes de vida desta geração, foram produzidos 542.741 unidades com preços variando de US$ 4.663 (modelo básico de 1968) a US$ 18.290 (Collector Edition de 1982). O motor menos potente foi o 305 (5,1 litros) V8 small block que produzia 180 cv. O mais potente foi o 427 (7 litros) ZL1 big block de alumínio que produzia até 680 cv.

Em 1971 uns caras incompetentes que estavam desempregados e sem ter algo de útil para fazer decidiram ganhar uma grana fácil inventando o ambientalismo. Com a nova legislação de controle de emissões, a festa da potência livre terminava. Para piorar, em 1972 surge a primeira crise do petróleo. Acredite, em 1974 fizeram um big block com 270 cv. Éca!

La garantia soy jô

Se você quiser se aventurar no insano universo paralelo dos proprietários de Corvette vintage há uma maneira imbecil e outra totalmente imbecil para fazer isso.

Recomendo fortemente a primeira: compre o animal reformado e pronto para encarar as ruas. O preço de compra vai ser maior? Sim. Você vai pagar mais impostos? Sim. Mas acredite, vai ficar muuuuuito mais barato, sob todos os aspectos, do que fazer o erro que eu fiz e escolher a segunda opção: refazer o carro inteiro no Brasil.

Corvette Stingray C3
Revista Car and Driver Brasil
Corvette Stingray C3

Arrume alguém de confiança e peça para ele escolher “o” carro para você. Uma vez no Brasil, escolha uma oficina de altíssima confiança (leia-se: cara pra cacete), que tenha pedigree atestado por inúmeros clientes satisfeitos.

Entenda os orçamentos dos eventuais serviços a serem feitos na sua Vette, mas nunca discuta o preço. Eles não vão fazer manutenção no seu carro, vão fazer manutenção no seu sonho. Se sua oficina aceitar baixar o preço, mude imediatamente para outra: ou eles vão usar material vagabundo no seu carro ou vão executar o serviço sem tesão. Ou as duas coisas.

Tenente Coronel Frank Slade

Não há uma vez que ao entrar na minha Vette não me sinta como o tenente coronel Frank Slade pilotando aquela Ferrari Mondial T Cabriolet nas ruas de Brooklin, Nova York no filme Perfume de Mulher. A história com minha Corvette teve um final feliz.

Mas por que me contentar apenas com um final feliz? Quero um final perfeito, o mesmo que o tenente coronel Frank Slade conseguiu: uma mulher sentada no banco de passageiro da minha C3 usando Fleur de Rocaille. 

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