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Programa de incentivos fiscais às indústrias, que contribui para o desenvolvimento em vários meios, esbarra em divergências entre envolvidos

Com o Rota 2030, o programa de desenvolvimento é mais duradouro e traria mais incentivos, logo atrairia as fábricas
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Com o Rota 2030, o programa de desenvolvimento é mais duradouro e traria mais incentivos, logo atrairia as fábricas

Rota 2030: vai ou não vai? Essa dúvida vem atingindo as fabricantes, que não podem contar com incertezas para investir. Além disso,  a indústria de autopeças se enrosca em impasses que podem custar grandes parcerias e, a população, se queixa com o custo-benefício dos carros que deixam bastante a desejar, bem como a sensação de que o mercado brasileiro se transformou em um verdadeiro entulho de tecnologias ultrapassadas. Junte-se a isso a descrença na economia do país, que se reflete no alto índice de desemprego e baixos salários, e a instabilidade política, que também afasta investimentos essenciais para o desenvolvimento do País. Pesadelo, não?

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Segundo Rodrigo Lima, engenheiro com experiência em incentivos fiscais, o Rota 2030 atenderia perfeitamente ao interesse público, superando a própria política de protecionismo de mercado. “A OMC (Organização Mundial do comércio) há tempos cobra do Brasil uma maior flexibilidade das cargas tributárias. O protecionismo exagerado da indústria nacional é uma enorme barreira para a chegada e o desenvolvimento de novas tecnologias, bem como a produtividade e a atratividade dos produtos ante o mercado. Isso tudo contribuiria com a expansão e o crescimento de mais cidades, uma vez que receberiam investimentos das fabricantes para mais unidades industriais. Os incentivos fiscais do Rota 2030 seriam benéficos justamente pelo fato de que, com menos custos para as atividades das empresas, mais pessoas seriam contratadas e mais em conta seriam os preços dos produtos; isso sem falar da maior qualidade do que passaríamos a comprar”, afirma o engenheiro.

Não existe almoço de graça

Sindicalistas, a ANFAVEA e a Sindipeças já passaram por diversas reuniões para tratar sobre o Rota 2030
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Sindicalistas, a ANFAVEA e a Sindipeças já passaram por diversas reuniões para tratar sobre o Rota 2030

Entretanto, ainda de acordo com Rodrigo Lima, uma série de impasses estancam o desenrolar do Rota 2030. Além disso, comenta sobre o projeto antecessor Inovar-Auto, que teve o seu fim no dia 31 de dezembro de 2017 para que, a princípio, iniciasse o Rota a curto prazo. “Conforme comentei, a OMC vem cobrando mais e mais que o Brasil reduza as taxas tributárias para adotar políticas de desenvolvimento, onde o Rota 2030 entraria em ação. Se o Inovar-Auto não contou com a adesão de algumas fabricantes pelo seu planejamento a curto prazo (o que não traria o retorno desejado a tempo, de tudo o que seria investido), o Rota 2030 ainda inclui as indústrias de auto-peças e, por ser de longo prazo (15 anos de duração), a dificuldade de traçar uma perspectiva de sucesso - em função dos interesses dos envolvidos - é ainda maior.”

“O Estado está sendo pressionado pela OMC e ele seria bem visto ao aprovar o Rota, mas por conta do altíssimo endividamento, não sabe se vale a pena abrir mão dos impostos. Além disso,  as fabricantes querem redução no IPI e revisão do IPVA sobre carros híbridos e elétricos para aderir ao programa. E as indústrias de auto-peças pleiteiam descontos no imposto de renda. Pronto, travou tudo”, completa o engenheiro.

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Os que já desistiram do Brasil

A Aston Martin, por exemplo,  chegou a ter loja em São Paulo e somente duas unidades foram vendidas em 2016
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A Aston Martin, por exemplo, chegou a ter loja em São Paulo e somente duas unidades foram vendidas em 2016

Aston Martin, Bentley, Lotus, Bugatti, Spyker, Koenigsegg, Pagani e a Rolls-Royce, quase extinta no Brasil, só para citar algumas marcas, vieram se aventurar em nossas terras, mas se arrependeram profundamente. Na verdade, todas as marcas de carros premium sentem a falta de um programa a longo prazo, como o Rota 2030, mas as que contam com um razoável volume de vendas, como a Audi, BMW, Land Rover e outras, ainda conseguem se segurar.

As razões para sofrerem no mercado automotivo brasileiro são justamente as faltas de incentivos por parte do Governo Federal, para atingirem objetivos como: desenvolvimento tecnológico (são os carros mais tecnológicos no mercado), níveis reduzidos nas emissões de poluentes (contam com os motores mais modernos e limpos para o meio ambiente), menor consumo energético e emissões de poluentes produzidos pelas fábricas modernas dos carros premium, entre outros quesitos. 

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Atraso tecnológico

Tal como o Rota 2030, no Brasil, muito se fala e muito se imagina, mas pouco se faz. A falta de liderança, o baixo senso de justiça e o comodismo nos deixa à mercê dos que já se instalam em cargos de poder e nada fazem ao País. De uma vez por todas, devemos pisar em cascas de ovos quanto às decisões que tomamos, mas fazê-las com atitude e vontade, caso contrário, ficaremos à deriva, em meio a modelos não tão avançados quanto os vendidos em países da Europa e Estados Unidos, onde os carros elétricos e híbridos estão se tornando cada vez mais comuns, avançados e acessíveis. Além disso, a tecnologia dos carros autônomos está prestes a começar a ser implementada nas ruas de alguns cidades na Europa por marcas como Mercedes-Benz, Volvo e Audi. Nos EUA, Ford, GM e Chrysler também já têm data para seus autônomos começarem a circular, o que deverá acontecer dentro de dois ou três anos. 

Enquanto isso, no Brasil, temos pouquíssimos modelos elétricos e híbridos à venda, entre os quais apenas Toyota Prius, Porsche Cayenne Hybrid e BMW i3.  E uma imensa falta de infra-estrutura para que esse tipo de modelo possa ser usado em todo País sem problemas de reabastecimento, entre outras questões.  Apenas algumas iniciativas de empresas privadas mantém minimanente viável ter um carro elétrico no País atualmente.

Um passo adiante, falando dos carros autônomos, nem se cogita ter essa tecnologia no Brasil, pois entre vários outros fatores, a precariedade da rede de internet 5G - cujo sinal deve ser de boa qualidade em qualquer localidade para que todo o complexo sistema de tecnologia autônoma funcione adequadamente - é parte da nossa realidade. Para se ter uma ideia, ainda existe sinal 2G sendo usado no País: haviam cerca de 45 milhões de planos contratados no fim de 2017, de acordo com o presidente da Qualcomm América Latina, Rafael Steinhauser. E pensar que, enquanto vos escrevo tudo isso, os Estados Unidos trabalha no desligamento da banda 3G. É outro mundo, pessoal...

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