
Centrais sindicais e sindicatos de metalúrgicos enviaram cartas ao presidente da República e a ministérios do governo federal pedindo a não renovação das cotas isentas de Imposto de Importação para veículos desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD). O regime perdeu validade em 31 de janeiro e pode ser reavaliado pela Câmara de Comércio Exterior (Camex).
O movimento ocorre após seis meses de vigência da medida, que concedeu isenção total do Imposto de Importação para kits de veículos elétricos e híbridos desmontados, permitindo que as montadoras importassem os conjuntos para montagem no Brasil.
O que são CKD e SKD
CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) são modalidades de importação em que o veículo chega ao país desmontado ou parcialmente desmontado.
No modelo CKD, o automóvel é enviado completamente desmontado, cabendo à fábrica local realizar a montagem. No SKD, parte da estrutura já vem montada, exigindo menor complexidade industrial no país de destino.
Segundo a Anfavea, a ampliação desse modelo em grande escala pode reduzir o nível de nacionalização da produção, limitar o desenvolvimento da cadeia de autopeças e concentrar a atividade industrial na montagem final.
Entidades defendem encerramento definitivo
A Anfavea defende que o encerramento do benefício, ocorrido no fim de janeiro, seja definitivo. A entidade já manifestou posição contrária à prorrogação às autoridades federais e a órgãos de comércio exterior.
Levantamento da associação indica que o setor automotivo paga, em média, o dobro dos salários da indústria de transformação, apresenta maior tempo de permanência no emprego e exige maior nível de escolaridade. Segundo o presidente da entidade, Igor Calvet, essas características seriam comprometidas em um modelo baseado majoritariamente na montagem de kits importados.
Além da Anfavea, o Sindipeças, que representa fornecedores do setor, e federações industriais de estados com fábricas de veículos também se posicionaram contra a renovação das cotas.
19 entidades assinam carta ao governo
Assinam a carta a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Força Sindical, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM), a Fit Metal e outros 14 sindicatos de regiões com produção automotiva, incluindo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Em trecho do documento, as entidades afirmam que a renovação das cotas “implicará em impactos negativos ao processo de reindustrialização do país”, com reflexos sobre empregos e sobre o programa Nova Indústria Brasil (NIB).
Incentivo a kits de eletrificados reacende disputa industrial
Em 2025, o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) autorizou 15 montadoras a importar, por seis meses e com alíquota zero, kits de veículos eletrificados pela Portaria Secex nº 420, incluindo marcas como Audi, BMW, Toyota e Renault, além de chinesas como GWM, BYD, GAC e Omoda Jaecoo.
O tema ganhou tração com casos de SKD no país. A BYD opera montagem a partir de kits importados na Bahia em cronograma de transição até ampliar conteúdo local, enquanto a planta da GWM em Iracemápolis entrou no debate público sobre o limite entre “produção” e “montagem”.
Estudo projeta corte de empregos e queda de arrecadação
Levantamento citado pela Anfavea estima eliminação de 69 mil empregos diretos, equivalente a 75% da força de trabalho atual do setor, além de impacto de 227 mil postos na cadeia de fornecedores e redução de R$ 103 bilhões nas compras anuais de autopeças locais.
O estudo também aponta perda de cerca de R$ 26 bilhões em arrecadação de ICMS e PIS/Cofins em um ano e queda estimada de R$ 42 bilhões nas exportações de veículos leves no mesmo período, com efeito sobre a balança comercial.
Tema será analisado pela Camex
A eventual retomada do regime dependerá de deliberação da Camex. O debate ocorre em um momento de expansão das montadoras chinesas no Brasil e de crescimento da oferta de veículos eletrificados importados.
O impasse envolve a estratégia industrial do país, o nível de nacionalização da produção e os efeitos sobre emprego, renda e desenvolvimento tecnológico da cadeia automotiva brasileira.