Primeiro veículo movido 100% a etanol no Brasil foi criado por estudantes
Acervo / Jornal Cruzeiro do Sul
Primeiro veículo movido 100% a etanol no Brasil foi criado por estudantes

No final de 1976, alunos da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba (Fatec), desenvolveram um projeto que se destacou como uma solução viável em meio à crise global do petróleo na época: o primeiro veículo movido 100% a álcool do Brasil.

Como a ideia surgiu

Os professores e estudantes sorocabanos apresentaram um protótipo de um Chevrolet Opala capaz de rodar apenas com o combustível renovável. A ideia inovadora dos jovens foi divulgada em um jornal da época, que também acompanhou os testes feitos com o veículo.

A concepção de criar um motor puramente movido a álcool foi motivada após um simpósio realizado na Fatec de Sorocaba, onde foram discutidas outras ideias de fontes alternativas de energia, considerando o período de grande dependência da importação de petróleo que o Brasil passava na época.

Durante o período citado, o mundo enfrentava um contexto geopolítico crítico, causado pelos embargos e taxas aplicadas na venda de petróleo pelos países do Oriente Médio, que na época eram os principais fornecedores do combustível. A ação foi motivada pela guerra contra os Estados Unidos, que eram apoiadores de Israel.

Por conta disso, os barris de petróleo apresentaram altas exorbitantes, resultando em uma escassez da matéria-prima. No meio desta situação, a busca por fontes alternativas foi encorajada pelo mundo todo.

Testes de desempenho

3 anos depois, o Opala foi nacionalizado e passou a ser fabricado no polo industrial da Fiat em Betim (MG). No entanto, diferente deste modelo, o protótipo desenvolvido na Fatec era pioneiro na iniciativa de funcionar apenas com etanol brasileiro.

Em 1977, o Opala de Sorocaba foi colocado nas estradas de asfalto e de terra para ser testado pela primeira vez. Em sua primeira viagem, com destino para Cerquilho (SP), o protótipo registrou um consumo médio de 8 km/l de etanol, um desempenho equivalente aos motores movidos a gasolina da época.

Alunos da Fatec Sorocaba com o protótipo do Opala movido a álcool
Acervo / Fatec
Alunos da Fatec Sorocaba com o protótipo do Opala movido a álcool


De acordo com a universidade, a pesquisa foi financiada pela própria comunidade acadêmica e não houve nenhuma interferência do Governo Estadual. Além disso, a faculdade emprestou sua estrutura do laboratório de Sistemas Mecânicos, enquanto os estudantes arcaram com a compra do Opala usado nos testes.

A Usina Santa Maria, localizada na cidade de Cerquilho, também ajudou nas pesquisas desenvolvidas pelos estudantes e forneceu álcool puro para a faculdade.

Como o motor foi modificado

Entre as principais modificações feitas para o motor, estão o aumento da taxa de compressão por meio do rebaixamento do cabeçote, substituição das velas convencionais por velas frias e alterações no carburador, bobina e platinado. Foram necessárias cerca de 50 horas de trabalho para transformar o propulsor.

A equipe do projeto foi formada por sete alunos: Edson Jesus Cruciolli, Ismael Guilherme Luvizotto, Luiz Henrique Alves, Mário da Silva Roquete, Takao Watanabe, Jaime Tomosigue e João Batista Maimone, todos coordenados pelo professor de Sistemas Mecânicos Dalmir Prado Salvi.

Os estudantes deram um depoimento para uma reportagem publicada no Jornal Cruzeiro do Sul e contaram que, na época, o maior desafio que enfrentaram foi “começar tudo do zero”. Além disso, o que mais atrapalhou foi a negativa das empresas e instituições que os mesmos entraram em contato para auxiliar no projeto.

Verdadeiro pioneiro

Originalmente, o Fiat 147 é reconhecido como o primeiro veículo movido a etanol fabricado no Brasil, onde a única diferença para o modelo sorocabano está na produção em série. Na época, o carro foi carinhosamente apelidado de “Cachacinha”, muito por conta do combustível que ele utilizava.


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