
Depois de um bom tempo sem ter um Chevrolet desse tipo na mão, confesso que foi interessante voltar ao Onix justamente numa versão que foge um pouco da lógica dominante do mercado. Enquanto quase todo mundo corre para os SUVs compactos, o Onix RS insiste em uma proposta que eu, particularmente, ainda valorizo bastante: a de um hatch com dirigibilidade mais envolvente, posição de dirigir mais baixa e um comportamento dinâmico que conversa com quem ainda gosta de dirigir.
O problema é que essa proposta chega a um preço difícil de engolir sem ressalvas. O Onix RS parte de R$ 133.390 e, com cor, acessórios e configuração parecida com a unidade avaliada, encosta na faixa de R$ 138 mil a R$ 140 mil. E é aí que a conta começa a complicar. Porque, nessa faixa, ele deixa de disputar só com outros hatches e passa a entrar no terreno de SUVs compactos maiores, mais equipados e, em alguns casos, até mais baratos.
O visual continua sendo um dos grandes argumentos
Se tem uma coisa que o Onix RS faz bem é chamar atenção pelo visual. Eu acho, sinceramente, que ele continua sendo um dos hatches mais bem resolvidos neste quesito do mercado brasileiro. A linha 2026 ganhou novos faróis, novo para-choque e grade redesenhada, e isso deu um fôlego bem-vindo ao carro.

Na versão RS, essa identidade fica ainda mais forte. O acabamento em preto brilhante aparece em praticamente tudo que interessa: grade, teto, retrovisores, gravata da Chevrolet e vários detalhes da carroceria. As rodas de 16 polegadas escurecidas ajudam bastante nesse pacote, assim como as saias laterais e o spoiler traseiro. É aquele tipo de carro que não é esportivo de verdade, mas consegue parecer mais animado do que realmente é. E, para muita gente, isso já basta.

A traseira, para mim, continua sendo um dos pontos altos do projeto. O conjunto é bem resolvido, as lanternas em LED funcionam bem visualmente, e existe ali uma robustez que eu sempre achei interessante no Onix dessa geração. No meu olhar, é um carro bonito. E isso conta.

Por dentro, ele acerta em alguns pontos e escorrega em outros
Ao entrar no carro, a sensação é de um hatch compacto bem montado dentro do padrão da categoria, mas sem milagres. O acabamento é majoritariamente em plástico, como se espera desse segmento, mas há alguns cuidados para melhorar a percepção geral. O apoio de braço revestido, os detalhes escurecidos e o toque visual da versão RS ajudam a criar um ambiente mais interessante.

Os bancos com encosto de cabeça integrado, por exemplo, eu achei bem bonitos. Eles cumprem muito bem o papel de dar mais personalidade à cabine. Há quem reclame que atrapalham a visão de quem vai atrás, mas, sinceramente, eu vejo mais isso como uma questão estética do que um problema real no uso diário. E, no meu caso, funcionou.
A multimídia também está bem resolvida, com Android Auto e Apple CarPlay sem fio, câmera de ré com boa definição, ar-condicionado digital e carregador de celular por indução. Nesse ponto, o Onix RS se mantém competitivo.
Agora, tem um detalhe que me incomodou mais do que deveria: o painel digital. Não porque ele seja ruim visualmente, mas porque a experiência de uso poderia ser muito melhor. Em vez de concentrar os comandos no volante, a Chevrolet joga parte desse gerenciamento para a própria multimídia. Na prática, isso significa desviar mais o olhar do que seria ideal. E eu acho isso um erro claro de ergonomia. Mais ainda porque espaço na tela existe. Faltou inteligência de interface.
Outro detalhe pequeno, mas que eu noto, é o apoio de braço central sem ajuste. Num carro automático, isso pesa menos, claro. Mas é aquele tipo de refinamento simples que faz diferença no uso diário.
O espaço interno é melhor do que parece
No banco traseiro, o Onix me surpreendeu de forma positiva. Para um hatch compacto, ele entrega um espaço honesto para as pernas, mesmo com o banco dianteiro bem recuado. Também há duas portas USB para quem vai atrás, o que sempre ajuda.
Não é um carro amplo como um SUV compacto, evidentemente. Mas eu também não o classificaria como apertado dentro da proposta. Ele está bem resolvido para a categoria.
Já o porta-malas, com 303 litros, continua sendo um dos pontos em que o carro mais mostra suas limitações quando a comparação sai do universo dos hatches e entra no dos SUVs. Não chega a ser ruim para a categoria, mas também não sobra. E há um detalhe chato: a abertura não é prática como deveria, já que falta um acionamento mais intuitivo na tampa. Você depende da chave ou do comando interno para abri-la.
Na ficha técnica, ele é comum. Ao volante, não
Debaixo do capô, o Onix RS segue com o conhecido motor 1.0 turbo de 115,5 cv e 16,8 kgfm, sempre ligado ao câmbio automático de seis marchas. E aqui mora uma das coisas mais interessantes do carro: no papel, ele não empolga. Mas, ao dirigir, a história muda bastante.

Esse conjunto é muito bem acertado. O motor trabalha em sintonia com o câmbio de um jeito que faz o carro parecer mais esperto do que a ficha técnica sugere. Ele está quase sempre acordado, responde bem no uso urbano e entrega uma leveza de condução que eu valorizo bastante. Não é um carro rápido, não é um carro esportivo, mas é um carro gostoso.
E isso, para mim, pesa mais do que número frio. Tem carro com mais potência que não passa metade da confiança ou da fluidez que o Onix transmite no dia a dia.

A dirigibilidade é o que realmente me faz olhar para ele
Se eu tivesse que resumir por que o Onix RS ainda faz sentido, eu diria sem pensar muito: dirigibilidade.
Eu me sinto mais à vontade guiando um hatch como esse do que um SUV compacto. A posição de dirigir mais baixa, as pernas mais esticadas, o jeito como o carro contorna curvas e como a suspensão lida com as irregularidades sem perder compostura me agradam mais. Isso é muito pessoal, claro, mas também é exatamente o tipo de ponto que explica por que nem todo mundo quer trocar um hatch por um utilitário.
A suspensão, inclusive, me parece muito bem calibrada. Ela não é macia demais a ponto de deixar o carro mole, mas também não cai naquele exagero firme que incomoda em piso ruim. Para mim, ela fica num meio-termo muito feliz entre conforto e firmeza. É um acerto que faz o carro ficar bom tanto na cidade quanto numa estrada mais sinuosa.
Consumo também joga a favor
Outro ponto positivo do carro está no consumo. Na avaliação, os números foram bem equilibrados. Em uso urbano pesado, com ar-condicionado ligado o tempo todo, a média ficou em 9,8 km/l com gasolina. Em trânsito mais fluido, ainda na cidade, subiu para 12,3 km/l. Já em rodovia, o carro registrou 15,8 km/l.
Eu achei resultados bons, principalmente levando em conta que o conjunto está longe de ser pensado só para economia. Ele consegue entregar eficiência sem matar o prazer de condução. E isso não é tão comum assim.
O problema é o que falta por esse preço
Se eu olho só para o comportamento do carro, eu gosto bastante do Onix RS. Mas quando começo a olhar o pacote pelo preço cobrado, fica impossível não fazer ressalvas.
Ele traz seis airbags, sensor de ponto cego, multimídia com espelhamento sem fio, ar digital e carregador por indução, o que é bom. Só que faltam itens que já começam a se tornar obrigatórios nessa faixa de preço. Não há pacote ADAS, não há frenagem autônoma de emergência, não há freio de estacionamento eletrônico e, consequentemente, não há auto hold.
Quando o comparativo entra no terreno dos SUVs compactos, isso pesa demais. Porque aí você começa a olhar para Tracker, Kardian, Pulse, Nivus, Tera e outros carros que podem oferecer mais espaço, mais tecnologia embarcada e até mais sensação de custo-benefício racional pelo mesmo dinheiro.
Eu teria um na garagem, mas entendo quem não teria
No fim, eu vejo o Onix RS como um carro que não faz sentido para todo mundo. E nem tenta fazer.
Se a lógica for puramente racional, ele perde terreno. Os SUVs compactos ganharam o mercado justamente porque entregam mais espaço, mais sensação de robustez e, muitas vezes, mais equipamento pelo mesmo valor.
Mas carro não é só planilha. E é aí que o Onix RS continua encontrando sua razão de existir. Eu teria um na garagem? Sim, teria. Porque eu gosto de hatch, gosto da ergonomia, da posição mais baixa, gosto da dirigibilidade dele e acho o conjunto muito agradável no uso real.
Agora, eu também entendo perfeitamente quem olharia para esse preço e escolheria outra coisa. Então, para mim, ele vale a compra numa situação muito específica: a de quem não quer SUV, prefere carro menor, gosta de dirigir e aceita abrir mão de alguns itens de tecnologia em troca de um hatch bem acertado.
É um carro que me agrada bastante. Mas é um carro que me agrada apesar do preço, não por causa dele.