
A Ferrari já alcançou a meta de vendas prevista para 2026 de seu primeiro automóvel totalmente elétrico, antes mesmo de iniciar as entregas aos clientes. Apresentado no fim de maio, o Luce teria recebido encomendas para quase 500 unidades em menos de dois meses, segundo informações do Financial Times.
A fabricante italiana não divulga publicamente o volume exato de pedidos nem a cota destinada ao primeiro ano. Fontes próximas à operação, porém, afirmam que o objetivo interno era comercializar pouco menos de 500 exemplares em 2026. O modelo parte de aproximadamente 550 mil euros na Europa, valor equivalente a cerca de US$ 630 mil antes das opções de personalização.
O desempenho inicial contrasta com a recepção dividida registrada na apresentação. O desenho distante das proporções tradicionais dos esportivos da marca, a carroceria com quatro portas e cinco lugares e a ausência de um motor a combustão provocaram críticas entre entusiastas. Ainda assim, a procura foi suficiente para preencher a programação comercial do primeiro ano.
China e novos milionários puxam a procura
A China aparece entre os mercados mais importantes para o início da trajetória do Luce. O país reúne consumidores de alto poder aquisitivo mais familiarizados com automóveis elétricos e sistemas digitais, combinação que se aproxima da proposta adotada pela Ferrari em seu novo modelo. A empresa afirma, contudo, que os pedidos estão distribuídos globalmente e incluem tanto clientes atuais quanto compradores que ainda não possuíam um veículo da marca.

Outro público considerado estratégico está nos polos tecnológicos dos Estados Unidos, especialmente no Vale do Silício. A Ferrari pretende alcançar empresários e investidores que já utilizam veículos elétricos, mas buscam um produto mais raro e personalizável.

A estratégia não prevê substituir rapidamente os modelos com motores V6, V8 ou V12. O Luce foi concebido como uma nova opção dentro da gama, voltada a um grupo específico de consumidores. A projeção é vender aproximadamente 2.500 unidades até 2030, com média próxima de 600 carros por ano. Esse volume representaria cerca de 5% das vendas anuais da fabricante.

Quatro motores e 1.000 cv
O Luce utiliza quatro motores elétricos, um em cada roda, alimentados por uma bateria de 122 kWh. O conjunto entrega cerca de 1.000 cv, permite acelerar de zero a 100 km/h em aproximadamente 2,5 segundos e alcançar 310 km/h. A autonomia divulgada supera 530 quilômetros, enquanto a arquitetura elétrica opera com 800 volts.
Além da propulsão, a cabine representa uma ruptura com os modelos atuais. O interior foi desenvolvido com participação de Jony Ive e Marc Newson, designers ligados ao estúdio LoveFrom. Ive ficou conhecido pelo trabalho realizado na Apple, incluindo produtos como iPhone, iPod e MacBook.

A proposta adota comandos físicos, superfícies minimalistas e uma nova organização das informações digitais. A colaboração busca afastar o projeto da aparência comum entre veículos elétricos e criar uma identidade própria para a entrada da Ferrari nesse segmento.
Críticas chegaram à antiga direção
A rejeição ao Luce não ficou restrita às redes sociais. Luca di Montezemolo, que comandou a Ferrari entre 1991 e 2014, manifestou forte desconforto com o projeto. Segundo o relato publicado pelo Financial Times, o ex-presidente chegou a dizer que esperava ao menos a retirada do cavalo rampante do modelo.
A estreia também foi recebida com cautela por parte do mercado financeiro. As ações da fabricante recuaram após a apresentação, em meio às dúvidas sobre o preço, o formato e a capacidade de transferir para um automóvel elétrico os atributos historicamente associados à Ferrari.
Primeira unidade irá a leilão
As entregas regulares ainda não começaram. O primeiro exemplar de produção será oferecido em um leilão beneficente da RM Sotheby’s durante a Monterey Car Week, nos Estados Unidos, em agosto.
A unidade terá configuração exclusiva e poderá superar US$ 1,1 milhão, mais de R$ 6 milhões em conversão direta. Depois disso, a Ferrari iniciará a distribuição dos carros encomendados, enquanto mantém a produção deliberadamente restrita para preservar a exclusividade do modelo.