Estar em um carro antigo é fugir de avisos, sensores e alertas e o que mais desviar a atenção do ato principal: dirigir.

Não são poucos os avisos nos carros modernos hoje em dia, tanto luminosos quando sonoros
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Não são poucos os avisos nos carros modernos hoje em dia, tanto luminosos quando sonoros

Estacionado na garagem, com o motor desligado e as portas abertas, o hatch japonês dispara um apito incessante, com potencial para irritar até os monges mais evoluídos.

Mas se os faróis estão desligados, qual o motivo da bronca? É a chave na ignição, com o carro desligado? Sim, mas qual o pecado nisso, se ainda nem saí dele?

Nos encontramos de novo no dia seguinte. Dou partida no motor e o mesmo apito volta, desesperado, para me avisar sobre o cinto de segurança. Não há um pingo de confiança na consciência do motorista? Eu sei que devo colocar o cinto antes de sair. Faço isso há 16 anos, não vou esquecer agora. Eu só quero um pouco de liberdade para digitar um endereço no GPS e me acomodar no banco.

Como se libertar do mundo num mergulho no fundo do mar, estar dentro de um automóvel antigo é fugir de avisos, sensores e alertas e o que mais desviar a atenção do motorista do ato principal: dirigir.

Num Ford Mustang , se há algum aviso sonoro que pede atenção é o ronco do V8, ronronando marcha-lenta ou urrando a 7.000 rpm

Ao volante de um DKW Belcar , o borbulhar do motor dois-tempos vai crescendo devagar até, delicadamente, sugerir uma marcha acima.

Driblando o trânsito enquanto atravessa a rua um pedestre chega perto demais de uma Brasília ou de um Fiat 147 ? Bem, nenhum sensor de estacionamento dianteiro abaixará o volume do rádio para gritar desesperadamente que tem alguém a cinco centímetros do para-choque. 

Somos beneficiados por toda essa conveniência dos novos tempos, claro. Em um passado não tão distante, as pessoas encontravam a bateria arriada após uma noite com o farol ligado. Estacionar numa vaga apertada ficou indiscutivelmente mais fácil hoje, já que o sensor de estacionamento banca o flanelinha. E sem pedir gorjeta.

Não ter apitos e alertas para avisar que o muro lá atrás está se aproximando, que o cinto não está afivelado ou que os faróis foram esquecidos ligados não parece ter relação com a crescente simpatia por carros antigos.

Mas a nostalgia ao redor dos tempos em que a relação homem-carro era mais afetiva, íntima e livre de alertas superprotetores, sim.


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