Salão do Automóvel
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Chegou a hora das exposições do setor automotivo se reinventarem em tempos de crise econômica e mudanças de paradigmas


No último dia de imprensa do Salão de Frankfurt, em setembro de 2019, a sensação foi de que aquela seria minha última vez por ali. A maior mostra de automóveis do mundo já não era a mesma, com poucos lançamentos importantes e grandes espaços vazios, resultado da ausência de muitos fabricantes. 

Não deu outra: passados alguns meses, os organizadores anunciaram que o evento passará a ser itinerante: a cada dois anos, alguma cidade da Alemanha receberá a exposição.

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Em outubro passado, vimos o pior Salão de Tóquio de todos os tempos, com raras novidades relevantes. No estande da Toyota não havia qualquer automóvel "normal", mas apenas delírios de mobilidade para um futuro distante. Depois de muito procurar, um colega conseguiu encontrar os lançamentos da marca - mas estavam expostos em um shopping, fora da área do salão...

Em janeiro deste ano, nada de Salão de Detroit... A centenária mostra, muito esvaziada, passará a ser realizada em julho. Assim, evitará a concorrência com a CES - a feira de tecnologia Consumer Electronic Show, que acontece todo janeiro em Las Vegas. De uns cinco anos para cá, a CES tornou-se a queridinha da indústria automobilística, que guarda suas novidades eletrônicas para o evento.

Na semana passada, o Salão de Genebra foi cancelado, na última hora, por causa do surto de coronavírus. Para evitar a propagação do COVID-19, o governo da Suíça proibiu a realização de qualquer evento que reúna mais de mil pessoas. Criado em 1905, o Salão de Genebra, até agora, só havia sido cancelado nos tempos da Segunda Guerra Mundial.

Agora, vem o anúncio oficial do cancelamento do Salão do Automóvel de São Paulo, que aconteceria em novembro. Na edição passada, realizada em 2018, algumas marcas importantes já haviam feito forfait , alegando razões econômicas. Tal tendência se intensificou e, nos últimos meses, diversos fabricantes anunciaram que não compareceriam à mostra de 2020.

Direto no alvo

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A velha receita dos salões que funcionaram tão bem durante mais de 100 anos parece não servir mais para os dias atuais

A velha receita dos salões de automóveis , que funcionou tão bem por mais de cem anos, parece ter se esgotado. Os custos se tornaram exorbitantes e as marcas já não querem dividir os holofotes com as rivais — em vez de torrar fortunas uma única exposição, preferem distribuir os gastos em muitos pequenos eventos e formas mais modernas de marketing.

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As ações de vendas passaram a ser dirigidas ao público-alvo de cada marca ou modelo. Um fabricante de automóveis de luxo, por exemplo, agora prefere patrocinar regatas ou torneios de tênis. Se o produto é um jipe ou picape 4x4, organiza-se um campeonato de rali ou demonstrações (para convidados) em pistas de off-road. Modelos esportivos têm seus dotes dinâmicos exibidos em eventos fechados, realizados em autódromos.

Em vez gastar entre R$ 5 milhões e R$ 20 milhões para montar um estande no Salão de São Paulo e atrair todo tipo de apaixonado por automóveis, o negócio agora é concentrar esforços de vendas em quem realmente pode comprar o carro.

Outro fator é que, atualmente, os lançamentos acontecem durante o ano inteiro. Com a intensa concorrência, e vendas em queda, os fabricantes não podem se dar ao luxo de guardar suas principais novidades para o salão. Com isso, já não há aquele gostinho de ser “o primeiro” a entrar em automóveis que só chegarão às ruas dentro de alguns meses.

Talvez, o principal fator para a decadência dos salões é que, em tempos de Uber, gadgets eletrônicos e aquecimento global, o automóvel já não exerce o mesmo fascínio sobre as novas gerações.

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Periga os salões , em breve, parecerem algo tão anacrônico quanto moças com pouca roupa girando em uma plataforma ao lado de um carro, a ouvir piadinhas sem graça de marmanjos.

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