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Além de alterar toda a lógica de vendas dos carros no Brasil, os jipinhos mudam até o planejamento das marcas para os próximos anos

Chevrolet Tracker  e Hyundai Creta são dois SUVs que têm sido preferidos no lugar de hatches, sedãs e monovolumes
Nicolas Tavares/iG
Chevrolet Tracker e Hyundai Creta são dois SUVs que têm sido preferidos no lugar de hatches, sedãs e monovolumes

Pela segunda semana consecutiva analisamos o fenômeno dos SUVs no Brasil, que já mudou todo o mapa de vendas dos fabricantes e promete muitas novidades. Afinal, nenhuma marca pode se dar ao luxo de desenvolver plataformas de veículos sem contemplar um SUV. Na semana passada esta coluna avaliou as razões do sucesso, e agora vai analisar as consequências dessa nova onda.

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 A primeira consequência óbvia é o enfraquecimento de alguns segmentos. Se uma legião de consumidores está aderindo à moda dos SUVs, alguém está perdendo. Segundo fontes das montadoras, a grosso modo, um terço de quem compra esses modelos deixa na troca um sedã e outro terço deixa um hatch. E o outro terço? É uma salada que mistura picapes, monovolumes e principalmente outros SUVs.

Ford Focus é um dos modelos que vem sendo mais trocado por SUVs no Brasil
Divulgação
Ford Focus é um dos modelos que vem sendo mais trocado por SUVs no Brasil

 Quer saber quais os modelos que mais entram nas concessionárias na troca por SUVs 0 km? Não há um líder disparado, mas os que mais aparecem são Ford Focus, Hyundai HB20, VW Fox, Ford EcoSport, Hyundai Tucson, Renault Duster, Fiat Freemont e os Honda Fit, City e Civic. A presença de modelos da Honda se explica pela fidelidade dos clientes da marca que migraram para o HR-V, líder da categoria desde seu lançamento, há mais de dois anos. O mesmo não se aplica à dupla da Hyundai – eles já apareciam nessa lista antes mesmo do lançamento do Creta.

 Com tantas novidades à vista, o segmento deve subir dos atuais 19% para 25% nos próximos anos. E isso terá fortes consequências sobre outras categorias de carros. As peruas, que já estavam cambaleantes, devem desaparecer (hoje são 0,05% do mercado). Versões aventureiras, como Crossfox e Citroën Aircross, também perdem o propósito. Aos monovolumes restará o público de taxistas/uberistas e vendas diretas em geral.E os hatches médios, como Golf e cia? Esses serão cada vez mais nicho de mercado (são menos de 2% hoje). O que é uma pena, pois estão entre os modelos mais gostosos de dirigir. 

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 SUVs pequenos e médios, dois mundos distantes

Jeep Compass ultrapassa o Honda HR-V e se torna o SUV mais vendido do Brasil no mês de abril
Divulgação/Jeep
Jeep Compass ultrapassa o Honda HR-V e se torna o SUV mais vendido do Brasil no mês de abril

 É importante diferenciar duas praias bem diferentes no segmento de SUVs. Em termos de volume, os compactos são os grandes responsáveis pelo crescimento vertiginoso das vendas. Começou com a dupla de líderes HR-V e Renegade, que deixou para trás o pioneiro EcoSport e o Duster. Peugeot 2008 e Chevrolet Tracker deram sua contribuição, mesmo no pelotão de trás. Agora o Hyundai Creta encosta nos líderes, e o Nissan Kicks gira bem (deve subir quando for nacionalizado e ganhar versões mais acessíveis).

 Quem compra esses “suvinhos” está geralmente fazendo um upgrade na vida automotiva, deixando para trás sedãs e hatches compactos, em sua maioria. A idade média dessa turma é de 47 anos, com renda mensal na casa de R$ 15 mil. Mulheres são cerca de 45% desse público. Outro segmento que desponta é o de SUVs médios, catapultado pelo lançamento do Jeep Compass. O modelo custa mais de R$ 100 mil, mas vende mais que o irmão menor Renegade, e em abril superou até o líder HR-V. Sua vantagem é praticamente não ter concorrentes, além dos já antigos Hyundai ix35 e Mitsubishi ASX, ou de modelos mais recentes (mas não tão baratos) como New Tucson e Kia Sportage. Preço também é o empecilho dos alemães Audi Q3, BMW X1 e Mercedes GLA, todos na faixa de R$ 150 mil.

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 Engana-se quem pensa que o consumidor fica na dúvida entre um “suvinho” completo e um SUV médio de entrada. O público é completamente diferente. Compradores de Compass e cia têm quase 50 anos, renda média mensal acima de R$ 20 mil, e há mais mulheres nesse grupo (quase metade de quem dirige). São clientes que já estavam com carros acima de R$ 100 mil, que privilegiam o espaço, o conforto e uma certa discrição. A maioria já teve SUV, outros migram de picapes médias, minivans e hatches médios. Poucos trocam sedãs médios como Civic e (sobretudo) Corolla por esses jipões. Os donos desses sedãs costumam ser mais fiéis e conservadores.

 O que vem por aí no segmento

GM Equinox foi apresentado no Salão de Detroit, em janeiro, e chega ao Brasil no segundo semestre no lugar do Captiva
André Jalonetsky/iG Carros
GM Equinox foi apresentado no Salão de Detroit, em janeiro, e chega ao Brasil no segundo semestre no lugar do Captiva


O fato é que ainda há um cardápio de modelos para apimentar a concorrência nessas duas divisões de SUVs. Entre os pequenos, espera-se a entrada da VW com um modelo derivado da nova linha compacta, na base do novo Polo (hatch) e Virtus (sedã). A Toyota terá um modelo desses na arquitetura do sucessor do Etios. E a GM, na próxima geração de Onix/Prisma. A Renault, que já tem a dupla Duster e Captur, vai entrar na base com o pequeno Kwid e no topo com o luxuoso Koleos, ainda este ano.

No andar de cima, a GM trará do México o Equinox para fazer frente ao Compass, e outras marcas tentarão morder um pedaço desse segmento que proporciona margens de lucro generosas. A questão aqui, e mesmo no andar de baixo, é ter redes especializadas nesse tipo de cliente disposto a gastar de R$ 80 mil a R$ 120 mil (a faixa que mais vende). Isso é um problema para marcas mais generalistas como VW, Chevrolet, Ford e as francesas e chinesas, com força de venda focada em modelos abaixo de R$ 70 mil. Nesse ponto, a FCA foi sábia ao criar uma rede de SUVs da Jeep separada da Fiat.

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