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Como numa corrida de F1, a largada de um novo carro precisa ser perfeita, pois é muito difícil fazer prova de recuperação no mercado atual

Os disfarces do novo VW Polo escondem mudanças na parte da frente da versão que já está sendo montada no Brasil
Divulgação
Os disfarces do novo VW Polo escondem mudanças na parte da frente da versão que já está sendo montada no Brasil

Quem já tem muitos cabelos brancos na cabeça, ou já os perdeu, deve se lembrar que o Volkswagen Gol teve um lançamento titubeante em 1980, ainda com motor refrigerado a ar. O fenômeno Fusca ainda era produzido, e a VW teve de dividir a atenção entre os dois modelos. A montadora chegou a temer pelo seu fracasso, mas correções de rumo foram feitas até que o Gol assumisse a liderança de vendas em 1987. O reinado durou por longos 27 anos, recorde que dificilmente será batido. O que o novo VW Polo, a ser lançado em novembro, tem a ver com essa história do velho Gol? Nada, mas vamos com calma.

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O paralelo é importante justamente para mostrar que os tempos mudaram, e muito! Se o Gol teve alguns anos para se ajustar e se firmar como sucesso, hoje isso é impossível. Carro que não diz a que veio logo na largada, dificilmente consegue encontrar o rumo numa segunda tentativa. Calejada por décadas de muitos sucessos, e alguns insucessos, a montadora alemã está ciente da responsabilidade que tem ao posicionar o novo VW Polo da melhor maneira no mercado nacional. Basta lembrar que o modelo foi produzido no Brasil entre 2002 e 2015 sem nunca ter se firmado como sucesso, apesar de suas qualidades.

Primeira geração do VW Gol, lançada em maio de 1980, vinha com motor 1.3, refrigerado a ar e com carburador simples
Renato Bellote/iG
Primeira geração do VW Gol, lançada em maio de 1980, vinha com motor 1.3, refrigerado a ar e com carburador simples

Por que o mercado de hoje é tão cruel com lançamentos mal posicionados em termos de preço e imagem junto ao público? Voltemos ao primeiro Gol. Naquela época, o Brasil tinha apenas quatro grandes montadoras, não havia importados e o ciclo de vida dos automóveis era bem superior a uma década. Havia tempo para correções de rumo. Hoje, são cerca de 20 fabricantes importantes disputando espaço, num mercado ávido por novidades, numa velocidade difícil de ser acompanhada. Quem não “chegar chegando” perde a vez, e o mercado parte para a próxima atração.

A história recente é repleta de casos de modelos que chegaram de forma arrasadora, e se mantiveram (ou se mantêm) com sucesso por anos. Ford EcoSport (o primeiro) e novo Ka, Chevrolet Onix e Prisma, Hyundai HB20 e Creta, Jeep Renegade e Compass, Honda Fit e HR-V, Toyota Corolla (atual) e Hilux, Peugeot 206, Fiat Toro e novo Uno, VW Fox, novo Renault Sandero, Citroën Xsara Picasso, Nissan Kicks, só para citar alguns, de várias marcas e segmentos.

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Volkswagen Up! foi um dos modelos que não tiveram sucesso logo nos primeiros meses de vendas nas lojas  do Brasil
Divulgação/Volkswagen
Volkswagen Up! foi um dos modelos que não tiveram sucesso logo nos primeiros meses de vendas nas lojas do Brasil

A lista de modelos que erraram na largada é igualmente extensa. E os erros podem ser por vários motivos. Por erro de design (Toyota Etios), de motor (Renault Mégane chegou com o fraco 1.6, depois não adiantou lançar o 2.0), de câmbio (falta de automático no Peugeot 2008 THP), de preço (Fiat Mobi, VW Up!, Honda WR-V), de falta de tradição no segmento (VW Amarok, Peugeot Hoggar, Renault Oroch), de mau posicionamento no segmento (Fiat Linea que não era sedã médio, Chevrolet Vectra que era na verdade Astra Sedan), de qualidade (os primeiros coreanos e chineses), de comunicação equivocada (Mercedes Classe A nacional)...

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Pela lista acima, fica evidente que é muito fácil errar a mão no lançamento, e cada vez mais difícil dar um tiro certeiro. Isso aumenta a responsabilidade dos estrategistas das montadoras. Já não basta se apoiar em clínicas com consumidores, que apresentam um retrato do passado. É preciso somar isso a uma boa dose de cautela na hora de fechar a lista de versões e preços, e muita intuição para perceber o famoso espírito da época, o tal “zeitgeist”.

Os desafios do novo VW Polo

 Voltemos ao novíssimo VW Polo. A montadora vem fazendo um trabalho brilhante de pré-lançamento, alimentando as expectativas em relação à sua chegada ao país. Mas o excesso de expectativa pode ser um risco, quando não atendida na ocasião do lançamento. De tudo o que se falou do Polo até aqui, já não há muitas dúvidas quanto à qualidade do produto, em consonância com o que de melhor a VW faz na Europa.

Volkswagen Fox corre o risco de sair de linha com a chegada do VW Polo ao mercado nacional, a partir de novembro próximo
Divulgação
Volkswagen Fox corre o risco de sair de linha com a chegada do VW Polo ao mercado nacional, a partir de novembro próximo

Mas qualidade não basta, e os fracos números de venda do Up! estão aí para confirmar isso. A VW já foi a mais brasileira das marcas, com modelos de forte apelo popular e emocional como Fusca, Brasilia, Kombi, Variant, Gol e até o Fox. Recentemente, a estratégia “Das Auto” a deixou alemã demais, e a marca perdeu aquela conexão com a VW brasileira, do “você conhece, você confia”.

Os sinais do mercado estão aí para a VW ver. 1) Preço é muito importante na categoria dos compactos, mesmo na dos compactos premium, como o Polo. 2) Hatches médios perderam a disputa para os SUVs compactos. O VW Polo vai querer ser um Golf um pouco maias acessível ou um Fox mais bacana, capaz de desafiar as versões intermediárias e topo dos campeões de venda Onix e HB20? 3) Terá a VW a ousadia de tirar logo de linha o Fox, ou ela vai embolar o meio de campo com tantos hatches compactos em sua gama? O VW Polo só vai se dar bem se ele se apresentar ao consumidor com a clareza de propósito que faltou ao Up!. Se ele disser logo de cara a que veio e tiver bom custo/benefício, tem tudo para se tornar um sucesso.

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