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Só que tudo é diferente do que há 15 anos. E dificilmente o novo “CUV” terá status maior do que uma versão aventureira do Ka

Ford Ka FreeStyle: visual aventureiro e promessa de um carro robusto, mas por enquanto, ainda não há detalhes técnicos
Divulgação
Ford Ka FreeStyle: visual aventureiro e promessa de um carro robusto, mas por enquanto, ainda não há detalhes técnicos

Num de seus mais memoráveis livros (O 18 Brumário de Luís Bonaparte), o pensador alemão Karl Marx escreveu que de tempos em tempos a história se repete. E concluiu: “A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Lembrei de Marx quando vi a Ford lançar num teatro paulistano, com pompa, circunstância, efeitos especiais e muito segredo sobre as informações técnicas, seu “novo utilitário compacto global”, o Ka FreeStyle. Afinal, tudo remete à gênese do EcoSport, lançado pela mesma Ford Brasil no já distante ano de 2003.

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Quinze anos se passaram e o mundo mudou demais. Mas a estratégia é a mesma. Em 2003, a Ford surpreendeu o mercado ao fazer algumas modificações na carroceria do Fiesta, na época seu carro mais popular, reforçar e elevar seu conjunto de suspensões e apresentar o EcoSport. Foi uma sacada genial, pois o mercado de SUVs só tinha modelos grandes e muito caros. Todo mundo torceu o nariz para o projeto da Ford Brasil – inclusive sua matriz, em Dearborn, EUA. Porém, o público adorou. O EcoSport rapidamente se tornou um sucesso de vendas e tirou a Ford do buraco financeiro. Mas será que o Ford  Ka FreeStyle vai conseguir o mesmo sucesso?

EcoSport de primeira geração: chegou de surpresa ao mercado, em 2003, e fez tanto sucesso que possibilitou a revitalização financeira da Ford
Divulgação
EcoSport de primeira geração: chegou de surpresa ao mercado, em 2003, e fez tanto sucesso que possibilitou a revitalização financeira da Ford

Hoje o EcoSport está em sua segunda geração e é um carro global. Seu sucesso foi
tão grande que a Ford Motor Company tratou de dar à filial brasileira uma fábrica nova
(em Camaçari, na Bahia) e a liderança do projeto, que passou a ter também a
participação da Índia. Hoje, o EcoSport é um carro consagrado, vendido até na Europa
e nos EUA, mas não tem no Brasil o mesmo sucesso que o manteve por 10 anos na
liderança, pois outros modelos do mesmo porte chegaram, tornando o mercado mais
competitivo.

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Eis que agora, 15 anos depois, a Ford Brasil resolve tirar outro coelho da cartola. E mandou um recado a Dearborn: queremos fazer um Ka aventureiro, bastante elevado, para enfrentar os desafios do trânsito urbano de cidades com buracos, lombadas, inundações e calçadas altas que, às vezes, se transformam em ruas. Mas sem mudar aquilo que o Ka tem de bom: a dirigibilidade, o visual e a praticidade de um autêntico hatchback. Para surpresa de todos, a matriz da Ford não apenas aprovou o projeto brasileiro como deu a ele um status global. E isso mudou tudo.

Status global para o CUV

Pela imagem, nota-se que a distância livre do solo é maior que nas demais versões do Ka, mas ainda não se sabe quanto
Divulgação
Pela imagem, nota-se que a distância livre do solo é maior que nas demais versões do Ka, mas ainda não se sabe quanto

Ao ganhar o status de carro global, que será vendido em 120 países do mundo, o Ka FreeStyle precisou passar por maiores transformações estruturais. Até mesmo o processo de produção da fábrica de Camaçari foi aprimorado. Com reforços na estrutura e nas suspensões e boa altura elevada do solo, o Ka FreeStyle ganhou uma importância similar à do EcoSport e será fabricado no Brasil e na Índia (Nova Délhi). Ele estreará em julho nesses dois países e também na Argentina. Até uma nova denominação interna o carro ganhou: CUV (Compact Utility Vehicle).

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Ford EcoSport global: agora fabricado no Brasil e na Índia, o Eco não faz tanto sucesso no Brasil, mas chegou à Europa e aos Estados Unidos
Divulgação/Ford
Ford EcoSport global: agora fabricado no Brasil e na Índia, o Eco não faz tanto sucesso no Brasil, mas chegou à Europa e aos Estados Unidos

Mas, nessa tentativa de repetir a história, talvez ela não seja tão gloriosa no mercado
brasileiro. A verdade é que, pela altura mínima do solo e outros dados técnicos, o
carro deve se encaixar como um utilitário esportivo no mercado brasileiro. Mas não é.
Assim como o Renault Kwid não passa de um hatchback elevado e o Honda WR-V
não passa de um Fit aventureiro. Por isso, o Ka FreeStyle pouco poderá fazer contra
os verdadeiros SUVs e crossovers já estabelecidos no mercado. Vai, é claro, tornar-se
uma opção para quem procura um hatch elevado e forte, algo além do que o
Volkswagen Gol representou (e ainda representa) para grande parte dos
consumidores brasileiros.

Só o tempo dirá se o Ka FreeStyle fará uma pequena revolução na vida da Ford ou se acabará sendo conhecido apenas como uma versão aventureira do Ford Ka, que hoje é um dos carros mais vendidos do Brasil. Como versão, ele será um complemento muito interessante e que acrescentará valor ao Ka. Mas, se a Ford quiser vendê-lo como um novo divisor de águas, nesse caso será a simples repetição da história, só que dessa vez não como tragédia para seus concorrentes, mas como um produto conceitual que o marketing supervaloriza.

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