
A GWM Poer P30 é uma daquelas picapes que não dá para julgar só pela ficha técnica. Se você olhar apenas para os números frios, talvez torça um pouco o nariz para os 184 cv do motor 2.4 turbodiesel. Em um segmento em que potência virou argumento de venda, isso pode parecer pouco. Mas, depois de alguns dias com ela, a sensação que fica é outra: a Poer P30 é bem mais interessante na prática do que parece no papel.
Eu avaliei a versão Exclusive, que custa R$ 240 mil e tenta ocupar aquele espaço das picapes médias mais equipadas, mas sem entrar na escalada de preços das rivais mais tradicionais. E ela faz isso com uma proposta bem clara: muito equipamento de série, bom espaço interno, acabamento acima da média, tração 4x4 com reduzida, bloqueio de diferencial traseiro e 10 anos de garantia.
Só que ela também tem uma característica que você precisa saber antes de comprar: a suspensão traseira é dura. Bem dura. E isso muda bastante a experiência, principalmente se você pretende usar a picape vazia, no dia a dia, do que carregada para trabalho.
Visual tenta parecer mais caro
A Poer P30 Exclusive tem um visual mais requintado que o da versão Trail. Enquanto a configuração de entrada aposta mais em plástico aparente e uma pegada de trabalho, a Exclusive vem com cromados, molduras pintadas na cor da carroceria, retrovisores pintados e um acabamento geral mais urbano.

Na dianteira, o “P” de Poer aparece bem destacado na grade. Parece o logo do Google Chrome.

Os faróis full LED com duplo projetor são um ponto positivo. Funcionam bem visualmente e reforçam a impressão de modernidade. A decepção vem logo abaixo: os faróis de neblina ainda usam lâmpadas halógenas.
Ela tem porte e números de picape média de verdade
A Poer P30 mede 5,41 metros de comprimento, 1,94 metro de largura, 1,88 metro de altura e tem 3,23 metros de entre-eixos. Ou seja, não é uma picape pequena tentando parecer grande. Ela tem porte, ocupa espaço e passa aquela impressão de quase full-size, principalmente pela traseira alta.

Na parte fora de estrada, os números também são bons: 27 graus de ângulo de entrada, 25 graus de saída, 21 graus de ângulo central e 21,2 cm de altura livre do solo. Somando isso à tração 4x4 com reduzida e ao bloqueio do diferencial traseiro, dá para dizer que ela tem um conjunto bem competente para encarar terra, estrada ruim e uso mais severo.
Mas tem um porém importante: os pneus. As rodas são de 19 polegadas, com pneus 265/55 R19, mas a banda de rodagem é muito mais voltada para asfalto. Então, apesar da picape ter um conjunto para ir longe no fora de estrada, eu teria cuidado antes de encarar lama ou um trecho mais pesado. Não porque a Poer não aguente, mas porque o pneu pode não te dar a tração necessária.

A caçamba é prática e bem resolvida
Na traseira, a Poer P30 tem uma tampa grande, alta e com amortecedor. Isso ajuda bastante no uso diário, porque tampa de picape pesada é uma coisa que parece detalhe até você precisar abrir e fechar várias vezes.
A caçamba tem 1.248 litros de volume e capacidade para 1.018 kg. É mais de uma tonelada de carga, dentro do que se espera de uma picape média com proposta de trabalho. Também gostei do revestimento interno, que protege a caçamba contra riscos e pancadas. Para quem usa picape como picape mesmo, isso importa. Evita dano na pintura, evita ponto de ferrugem no futuro e dá menos dó de carregar ferramenta, material, caixa ou equipamento.
Na traseira, as lanternas grandes têm um desenho com efeito 3D e lembram um pouco a proporção das lanternas da S10. O para-choque, por outro lado, não tem aquele cromado tradicional de muitas versões topo de linha. Eu não acho necessariamente ruim, mas é curioso, porque a dianteira tenta passar uma imagem mais sofisticada.

O interior me ganhou
A Poer P30 me ganhou mais por dentro do que por fora. O acabamento é realmente bom para a categoria. As portas têm material macio ao toque, os bancos têm couro de boa qualidade e os plásticos passam uma sensação melhor do que eu esperava.

Os bancos dianteiros têm ajustes elétricos, ventilação e aquecimento. Isso é exatamente o tipo de item que muda a percepção do carro no uso diário.
O volante, no entanto, poderia ser melhor resolvido. O logotipo “P” aparece de um jeito meio apagado, quase como se o volante fosse genérico. Em um carro de uma marca que ainda está construindo identidade no Brasil, eu acho que esse detalhe merecia mais cuidado. Um emblema menor, mais bem aplicado, talvez funcionasse melhor.
A central multimídia é enorme. Parece uma televisão no painel. E, felizmente, a GWM não colocou tudo de um jeito impossível de usar. Há atalhos para o ar-condicionado, e o sistema permite ajustar temperatura, ventilação e aquecimento dos bancos de maneira relativamente simples.
Também há Android Auto e Apple CarPlay sem fio, carregador por indução de 50 W com ventilação, entradas USB em dois padrões, freio de estacionamento eletrônico, Auto Hold, comandos para as tomadas 12 V e botão para bloqueio do diferencial traseiro.
O sistema de câmeras é um dos melhores argumentos
Um dos recursos que mais gostei na Poer P30 foi o sistema de câmeras. A imagem é boa, há visualização 2D, visão auxiliar, ângulo das rodas dianteiras e função de chassi transparente. Para uma picape grande, isso ajuda demais.
Em manobra, você sabe exatamente onde está colocando o carro. Em trilha ou estrada ruim, também consegue ter uma leitura melhor do que está embaixo e ao redor. O sistema ainda mostra a distância em centímetros, o que deixa tudo mais intuitivo.
Espaço traseiro é melhor do que muita picape média
Outro ponto muito positivo é o banco traseiro. Eu sentei atrás com o banco dianteiro ajustado para minha posição de dirigir e fiquei confortável. Há bom espaço para pernas, bom espaço para cabeça e o assoalho é quase plano.
E tem uma solução que eu achei muito inteligente: o assento traseiro pode ser levantado para criar uma área interna de carga. Dá para usar esse espaço para compras, malas, mochilas e objetos que você não quer colocar na caçamba, já que que ela não vem com capota marítima de série.
O motor entrega o que precisa
Vamos ao ponto que pode gerar mais discussão. O motor é um 2.4 turbodiesel de quatro cilindros, com injeção direta, 184 cv a 3.600 rpm e 48,9 kgfm de torque a 1.500 rpm. O câmbio é automático de nove marchas, com conversor de torque, e a tração é 4x4 com reduzida.

Sim, tem concorrente com mais potência. Sim, no papel ela pode parecer menos empolgante. Mas picape média não é carro para arrancadão. O que importa mais aqui é torque em baixa, capacidade de carga, robustez, consumo e segurança para ultrapassagens.
E, nesse uso, ela convence. A Poer P30 não parece fraca. Ela responde bem, o câmbio trabalha de forma correta e o torque aparece cedo. O 0 a 100 km/h fica na casa dos 11,2 segundos, que é um número bem adequado para uma picape diesel desse porte.
O consumo também me surpreendeu positivamente: no meu uso urbano, sempre com ar-condicionado ligado e pegando bastante trânsito, consegui média de 10,6 km/l. Na estrada, cheguei a 12,7 km/l.
Vale ressaltar que foram números melhores do que os divulgados pelo Inmetro, que são, respectivamente 9,4 km/l e 10,4 km/l. A autonomia urbana é de 733 km e rodoviária de 811 km.
O grande problema é a suspensão traseira
Agora vem a parte que eu não consigo aliviar: a suspensão traseira é dura demais quando a picape está vazia.
A dianteira usa braços sobrepostos com mola helicoidal, enquanto a traseira tem eixo rígido com feixe de molas. É uma solução comum em picapes médias, principalmente pela capacidade de carga.
O problema não é a arquitetura em si. É a calibração. Com a caçamba descarregada, a traseira pula, balança e transmite bastante coisa para a cabine. Em piso ruim, lombada, valeta ou rua remendada, ela cobra um preço alto.
E eu não estou falando isso porque “picape é assim”. Algumas concorrentes já evoluíram bastante nesse ponto. Até a Fiat Titano, que no início recebeu críticas pesadas por ser dura, foi recalibrada e ficou melhor. A Poer P30, nesse sentido, lembra um pouco aquela primeira fase da Titano.
Se você vai usar a picape com carga, isso tende a melhorar. O acerto parece pensado para aguentar peso. Mas se a ideia é usar vazia na cidade, no dia a dia, é bom fazer um test drive antes. Porque esse é o ponto que pode definir a compra.
ADAS completo
Se a suspensão tira pontos, o pacote de assistência à condução devolve muitos deles. A Poer P30 tem um sistema de ADAS bem completo para a categoria. E aqui a GWM costuma acertar.
Os alertas são barulhentos e às vezes invasivos. O carro avisa muita coisa: aproximação de moto, risco de colisão, carro da frente, faixa, placa de trânsito. Algumas dessas funções eu desligaria no uso diário, porque podem cansar.
Mas o piloto automático adaptativo funciona muito bem. Ele controla a velocidade, mantém distância do carro à frente e ajuda a fazer curvas mantendo a picape centralizada na faixa. Claro que você precisa supervisionar o tempo todo, colocar a mão no volante quando o sistema pede e entender que não é direção autônoma. Mas, para estrada, é um recurso excelente.
E aqui está um dos maiores argumentos da Poer: ela oferece um pacote tecnológico que algumas concorrentes mais caras não entregam do mesmo jeito. Para quem viaja muito, isso reduz cansaço e aumenta a sensação de segurança.
Garantia de 10 anos é argumento forte
Outro ponto que pesa muito a favor é a garantia de 10 anos. E eu acho isso especialmente importante porque a GWM ainda é uma marca nova para muita gente no Brasil, principalmente no segmento de picapes.
A Toyota também fala em garantia longa na Hilux, mas ali o funcionamento depende de renovações periódicas e critérios específicos. Na GWM, tem seguredo: são 10 anos de garantia, e pronto.
Isso passa confiança. Mostra que a marca está disposta a bancar o produto por bastante tempo. Em um segmento em que muita gente ainda compra pela reputação da marca, esse tipo de cobertura ajuda a reduzir a insegurança.
A Poer P30 vale a compra?
A GWM Poer P30 é uma picape com muitas qualidades. Ela é espaçosa, bem acabada, econômica, tem bom desempenho para a proposta, entrega bastante tecnologia, oferece um sistema 4x4 completo, tem caçamba útil e ainda vem com garantia de 10 anos.
O problema é que ela também é dura. E não é pouco. A suspensão traseira pode incomodar bastante quem pretende usar a picape vazia no dia a dia. Então, para mim, a decisão passa por uma pergunta simples: o conjunto compensa esse desconforto?
Se você quer uma picape para trabalho, uso misto, estrada, carga eventual e valoriza tecnologia, a Poer P30 faz muito sentido. Ela entrega um pacote muito honesto pelo preço. Se você quer uma picape mais confortável para rodar vazia na cidade, talvez ela exija mais tolerância.
Eu não deixaria de olhar para ela por causa da suspensão. Mas também não compraria sem dirigir antes. Porque a Poer P30 é exatamente esse tipo de carro: na ficha, ela pode parecer menos do que é. Ao volante, ela surpreende. Só que a traseira faz questão de lembrar, o tempo todo, que ainda estamos falando de uma picape feita para carregar peso.