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Novo SUV terá dura missão de vingar no segmento mais concorrido do mercado nacional

Ao mesmo tempo que o Citröen C4 Cactus é uma das únicas saídas da PSA, luta em um mercado onde tradição conta muito
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Ao mesmo tempo que o Citröen C4 Cactus é uma das únicas saídas da PSA, luta em um mercado onde tradição conta muito

Antes de analisar o recém-lançado Citroën C4 Cactus, é preciso fazer um raio-X de como está a marca de origem francesa. Há 10 anos, a Citroën era a 9ª maior vendedora de carros no Brasil. Foram mais de 68 mil unidades emplacadas em 2008, ou 2,6% do bolo total do nosso mercado. Naquela época, ela tinha três modelos muito competitivos: o hatch C3 (36 mil unidades emplacadas naquele ano), o sedã médio C4 Pallas (18 mil) e a minivan Picasso (12 mil).

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Naqueles tempos, ou dez anos antes da chegada do Citroën C4 Cactus , a montadora dominava o Mundial de Rali (WRC). Entre 2000 e 2012, seus carros e de sua irmã Peugeot (ambas formam a PSA ) venceram 11 de 13 mundiais de construtores, numa categoria em que o trabalho de suspensão e tração define os campeões. A dupla francesa, porém, não aproveitou essa supremacia para ingressar com força no então promissor segmento de SUVs. Perdeu o melhor bonde da história recente da indústria automobilística.

A PSA, com Sébastien Loeb, brilhou por muitos anos no WRC. Será que o Citroën C4 Cactus fará o mesmo no mercado?
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A PSA, com Sébastien Loeb, brilhou por muitos anos no WRC. Será que o Citroën C4 Cactus fará o mesmo no mercado?

Voltando ao Brasil, os tempos de bonança ficaram para trás. Hoje, a Citroën está em 13º no ranking, com apenas 0,8% do bolo. Entre janeiro e agosto emplacou 12.729 unidades, média inferior a 1.600 carros/mês. Há 10 anos eram 5.700/mês. O C3 ainda é o carro-chefe de vendas da marca, com 4.680 unidades vendidas até agosto. Ele não figura nem no Top 10 do segmento. Em seguida vem o Aircross (4.231), 14º no ranking de SUVs e crossovers. O C4 Lounge, sucessor do Pallas, ainda vem da Argentina e é apenas o 8º no ranking de sedãs médios, com 2.548 emplacamentos. A Picasso, antes nacional, agora vem da França. Teve 252 emplacamentos neste ano, e lidera o quase extinto segmento de minivans de luxo.

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Pela atual situação da marca, dá para concluir que o C4 Cactus produzido em Porto Real (RJ) chega com a missão de ressuscitar a Citroën no país. Seus preços variam entre R$ 69 mil e R$ 99 mil, em seis versões. As de entrada e intermediárias contam com motor 1.6 de 122 cv e câmbio de seis marchas, manual ou automático. A automática mais acessível custa R$ 80 mil. As duas “topo de gama” partem de R$ 95 mil, dotadas do forte motor 1.6 turbo de 173 cv.

Citroën Aircross não conquistou o mercado, algo que não pode acontecer com o Citroën C4 Cactus
Cauê Lira
Citroën Aircross não conquistou o mercado, algo que não pode acontecer com o Citroën C4 Cactus

Se até agora a Citroën apostava em nichos de mercado, exceto com o C3, agora ela dobra a aposta no segmento mais efervescente do mercado nacional. O que mais cresce, mas o que mais ganha competidores. A tentativa anterior da marca com o Aircross não convenceu, pois ele pertence à estirpe dos aventureiros derivados de carros de passeio (no caso o finado monovolume C3 Picasso).

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Vale lembrar que a PSA havia tentado a sorte com o SUV Peugeot 2008, que chegou ao mercado em 2015, na mesma época do Honda HR-V e do Jeep Renegade. Enquanto os dois rivais tornaram-se fenômenos instantâneos de venda (o HR-V lidera até hoje a categoria), o bom 2008 não embalou, numa infeliz combinação de rede enfraquecida e escolha equivocada de conjunto motor/câmbio. Neste ano foram emplacadas 6.195 unidades do 2008, bem abaixo de HR-V, Renegade, Hyundai Creta e Nissan Kicks, todos na faixa de 30.000.

Citroën C4 Cactus: missão árdua para o novo SUV

O Peugeot 2008, que custa perto de R$ 90 mil, vai sofrer concorrência direta das versões mais caras do Citroën C4 Cactus, por sinal – o que deve complicar ainda mais seu desempenho comercial. Vale destacar que muitas das concessionárias das duas marcas francesas já trabalham em conjunto, e a comparação no show-room será inevitável.

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Embora ofereça uma versão de R$ 70 mil, a Citroën sabe que a que vai atrair clientes será a automática de R$ 80 mil. Nessa faixa, vai brigar mais com o Honda WR-V (outro que não emplacou) do que com o salgado H-RV. O Renegade que vende também está acima de R$ 90 mil, da mesma forma que os concorrentes da Hyundai e da Nissan. Logo, a briga do C4 Cactus será com modelos do segundo bloco em vendas, como o Ford EcoSport e o Renault Duster, além do WR-V. E também disputará com hatches premium que estão em alta, como VW Polo e Toyota Yaris.

Um parâmetro para o Citroën C4 Cactus é superar o atual carro-chefe nas vendas, o Peugeot 2008
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Um parâmetro para o Citroën C4 Cactus é superar o atual carro-chefe nas vendas, o Peugeot 2008

Para complicar, a chegada no fim do ano do VW T-Cross, SUV do mesmo porte do C4 Cactus, vai chamar muita atenção da mídia e do público. O T-Cross será apresentado no Salão do Automóvel, em novembro. A Citroën e a Peugeot optaram por não ter estande no São Paulo Expo. Será a primeira ausência dos franceses desde o início dos anos 90.

Sem vida fácil, as vantagens competitivas do Citroën C4 Cactus em relação aos SUVs mais vendidos são o fator novidade e o preço interessante. O desenho pouco discreto tem um apelo bem jovial, mas certamente dividirá opiniões. Porém, o maior desafio será mesmo a renovada (e inexperiente) rede de revendas, e também a imagem da marca, arranhada nessa década de ocaso pelo qual passou, culpa de más administrações anteriores no país e em nível global. Nunca a Citroën do Brasil precisou tanto de um blockbuster como agora. Será ele o Citroën C4 Cactus?

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