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Melhora no design, capricho no acabamento, investimento em tecnologia e criação de uma rede de assistência técnica aumentam a confiança

Os carros chineses já são uma realidade no mundo inteiro. Aos poucos, os consumidores estão perdendo o receio de adquirir um modelo criado na China. Ainda em abril, de 18 a 25, acontece mais uma edição do Salão de Xangai (Auto Shangai 2019). Dois dias antes, a internet brasileira será invadida com uma enxurrada de notícias sobre os novos carros chineses, por conta da presença de vários jornalistas especializados fazendo a cobertura.

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Chery Tiggo 2
Divulgação
Tiggo 2: o destaque entre os carros chineses do Brasil atualmente é fabricado pela Caoa Chery

Esse movimento já era esperado. Assim como aconteceu com os carros coreanos, os carros chineses se tornaram atraentes e confiáveis. Ora, se a China consegue construir satélites, naves espaciais e até estação orbital, por que não conseguiria construir um automóvel? O mesmo vale para a indústria aeronáutica. O jato chinês Comac C919 enfrenta nada menos que o Boeing 737 e o Airbus A320. Não satisfeita, a China desenvolve também o Comac C929, um widebody para concorrer com o Boeing 777. Não existe mais dúvidas sobre a capacidade tecnológica chinesa, mas no mercado de carros a distância entre o fabricante e o consumidor é um pouco mais complexa, por isso nem todas as marcas fazem sucesso.

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No Brasil, apenas três marcas chinesas atuam no mercado de automóveis: a Chery, a JAC e a Lifan. Desde que teve 50% de suas ações adquiridas pela Caoa, a Chery ganhou quatro novos modelos e passou a disputar de igual para igual com algumas marcas tradicionais. Nos dois primeiros meses de 2019, a Caoa Chery emplacou 2.310 carros no Brasil, contra 329 da JAC Motors e 114 da Lifan. A Gelly saiu do mercado em 2018, não por culpa dos carros, que eram bons, mas por decisão estratégica do Grupo Gandini, importador da coreana Kia Motors. A vantagem da Chery é que todos os seus carros são fabricados no Brasil, nas fábricas do Grupo Caoa em Jacareí (SP) e Anápolis (GO), enquanto os carros da JAC e da Lifan são importados.

Consumidor quer carro chinês com boa assistência

Quatro modelos da Caoa Chery dominam o mercado de carros chineses no Brasil: Tiggo 2 (com 1.107 vendas em janeiro e fevereiro), QQ (492 emplacamentos), Tiggo 5x (387 vendas em apenas um mês) e Arrizo 5 (com 285 licenciamentos). Em seguida aparecem os dois únicos modelos que merecem atenção por parte da JAC: T40 (com 192 vendas) e T50 (com 101). O Lifan X60 vem em sétimo lugar com 83 emplacamentos. Depois aparecem o Caoa Chery Tiggo 7, com 38 vendas em um mês, e o Lifan X80, com 30 licenciamentos em dois meses.

Avião chinês, rival da Boeing
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Comac C919: o jato chinês que concorre com o Boeing 737 e o Airbus A320 mostram a força da tecnologia chinesa

Se os carros chineses já são uma realidade em termos técnicos, os consumidores passam a considerar outros aspectos na hora de comprar um modelo criado ou produzido na China. E os principais itens são o valor de mercado e a assistência técnica. Nesse aspecto, a Caoa Chery leva grande vantagem sobre as demais marcas chinesas. Primeiro, porque é uma associação entre um grupo brasileiro e um chinês estabelecido no Brasil (as outras duas são importadas); segundo, pela própria força da marca Chery na China.

Apesar de ser um país com fortíssimo controle estatal, a China tem um mercado bastante competitivo. Das três marcas chinesas presentes no Brasil, a Chery é a que mais vende, com 443,7 mil emplacamentos em 2018. A JAC vendeu 185,2 mil e a Lifan recuou para 58,2 mil unidades anuais, depois de vender 108,2 mil em 2017. Mesmo assim, a Chery ocupa a 19ª posição no ranking. A JAC está em 27º e a Lifan ocupa o 45º lugar. Porém, o mercado de automóveis está mudando radicalmente e não será surpresa se uma marca chinesa brigar de igual para igual com as marcas tradicionais de carros quando a eletrificação for uma exigência de todos os governos. Afinal, dos 1,2 milhão de carros elétricos vendidos no mundo, nada menos de 600 mil rodam na China.

Chery tem 208 patentes ativas para veículos elétricos

Carro elétrico da Chery
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eQ1: mostrado no último Salão de São Paulo entre os carros chineses, é apenas um entre muitos projetos de elétricos

Para dar uma ideia, desde 2010, a montadora Chery já acumulou mais de 430 patentes em tecnologias para veículos elétricos e 208 delas estão ativas. No primeiro semestre de 2018, a Chery cresceu 250% nas vendas desse segmento e atualmente ocupa a oitava posição no ranking mundial de veículos elétricos. Isso porque o nível de poluição em algumas cidades, como Pequim e Tianjin, é tão grande que o emplacamento de carros novos a combustão é limitado em 100 mil unidades anuais. Pequim e Tianjin são parecidas com São Paulo em muitos aspectos. Modelos como o eQ1, eQ, Tiggo 2e e Arrizo 5e despertaram grande curiosidade do público no último Salão de São Paulo e houve especulações (não confirmadas) de que o Tiggo 2e poderia custar R$ 50 mil no mercado brasileiro, se o governo incentivasse esse mercado.

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Estação Espacial Chinesa
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Estação espacial chinesa: o projeto da futura base orbital mostra que a China quer ir muito além no avanço tecnológico

Para concluir essa análise que faço do atual momento dos carros chineses, devo dizer que estamos apenas na segunda onda. A primeira aconteceu em 2010 e 2011, quando os carros chineses tinham muitos equipamentos de conforto (ar, direção, vidros elétricos etc.) que não eram disponibilizados nos carros nacionais, mas ainda eram tecnicamente inferiores. Depois, houve fortes incentivos para a indústria nacional no governo Dilma Rousseff e os importados passaram cinco anos em crise.

A segunda onda é agora, com o avanço da Caoa Chery como marca nacional, oferecendo carros chineses bem construídos e uma boa rede de assistência técnica. A terceira onda acontecerá quando aumentar a procura por novas formas de mobilidade urbana. Pode ter certeza de que nesse momento os carros chineses estarão entre os mais procurados, pois a filosofia do país é primeiro aprender a produzir, por meio de tecnologia reversa, para só depois inovar. O próximo Salão de Xangai deve mostrar que essa fase de inovação já começou.