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Morta, mas com 30 carros à frente, a perua da VW precisa torcer contra a Volvo V60 para ser campeã “post-morten”, como Jochen Rindt na Fórmula 1

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Volkswagen Golf Variant: apenas 30 carros de diferença para garantir o título “post-morten” entre os SW Grandes

Três carros excelentes estão silenciosamente sendo mortos pela Volkswagen do Brasil: a perua Golf Variant, o hatch Golf e o subcompacto Up. Na verdade, a perua já morreu, só faltou ser enterrada. E, por ironia do destino, como um fantasma a assombrar o sono do presidente da Volks na América do Sul, Pablo Di Si, o Golf Variant vaga pelo ranking da Fenabrave como um morto-vivo. Um zumbi metálico injustamente assassino pela cruel política da indústria de dar ao povo somente o circo que ele pede e não o pão que ele necessita.

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O circo, claro, são os SUVs. No caso da Volkswagen , o T-Cross, que numa estreia digna de Game of Thrones está matando três carros de uma só vez. Nesse ponto, está sendo tão nocivo quanto o Polo, que matou o CrossFox, o SpaceFox e o Space Cross, deixando o Fox sobreviver mais algum tempo até ter uma morte natural.

Dos três carros marcados para morrer pelo T-Cross, o Up e o Golf merecem uma análise à parte, por isso vou me concentrar no Golf Variant, a perua que tem nome masculino-feminino. Por que? Ora, porque todo entusiasta de carros que se preza deve ficar indignado quando uma ótima perua morre para dar espaço a mais um SUV sem graça e que não tem sequer tração 4x4, como tantos outros. Nesse ponto, a indústria automobilística apenas manipula os desejos dos consumidores, fazendo-os crer que os tais SUVs (que nada mais são do que crossovers) entregarão a felicidade tão almejada nessa vida terrena e consumista. 

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Volvo V60: cheia de gás, a perua sueca ainda tem chances de ficar com o título e conseguir o que Jacky Ickx não conseguiu

Mas voltemos à perua Golf Variant . A indústria divide o nicho de peruas (ainda com o pomposo nome de station wagon) em dois: SW Médios e SW Grandes. Uma nomenclatura que não tem muito a ver, pois as chamadas peruas “médias” são na verdade compactas e as “grandes” são médias. Coisas da Fenabrave, mas isso é o de menos.

Entre os SW Médios, o Fiat Weekend concorre contra… ninguém. Sua última venda mensal foi de 433 unidades (total de 2.552) e seu único rival, o Volkswagen SpaceFox (1.736 vendas) vendeu apenas três exemplares em setembro. Os outros dois “concorrentes” são o Fiat Palio Weekend (cinco vendas no ano) e o VW Parati (dono de uma mísera venda).

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No caso dos SW Grandes, o VW Golf Variant lidera com 114 vendas no ano. Porém, a perua Golf está morta. Sua melhor venda foi em janeiro: 45 unidades. Depois caiu para 26 em fevereiro, 27 em março e 12 em abril. Então morreu. Vendeu um exemplar em maio, outro em junho e mais dois em julho por conta de algumas missas que rezaram por sua alma. Em agosto e setembro, nenhuma venda. Mesmo assim, a perua Golf Variant deverá ser campeã “post-morten” na categoria dos Station Wagon Grandes. Exatamente igual ao que ocorreu com o piloto austríaco Jochen Rindt na Fórmula 1, em 1970.

A história de Jochen Rindt

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Jochen Rindt: o único campeão “post-morten” da F1 morreu no GP da Itália de 1970, após cinco vitórias com a Lotus

Foi a única vez que um piloto foi campeão póstumo. Rindt era o piloto número 1 da Lotus e estava disparado na liderança. Porém, na antepenúltima prova do campeonato, sofreu um acidente em Monza, morrendo na véspera do GP da Itália. O belga Jacky Ickx, da Ferrari, não pontuou naquele trágico GP, mas se candidatou a roubar o título de Rindt, pois ainda faltavam três corridas. Ickx ganhou a corrida seguinte, no Canadá e também a última prova da temporada, no México. Porém, por ironia do destino, o jovem brasileiro Emerson Fittipaldi ganhou de forma surpreendente o GP dos EUA, em sua quarta corrida na Fórmula 1, garantindo o título “post-morten” ao colega Rindt.

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Emerson Fittipaldi: vitória inesperada em seu quatro GP, para garantir o título póstumo ao companheiro da Lotus

Como Rindt, o Golf Variant deverá ser campeão “post-morten” em 2019. O Ickx dos carros é o Volvo V60, que tem apenas 84 vendas registradas em nove meses. Para ser campeão, o V60 precisa descontar uma diferença de 30 carros em três meses. Não é muito, mas suas melhores vendas foram em maio (19 unidades) e agosto (12). Em setembro, vendeu apenas oito. Se mantiver a média, vai faltar três ou quatro carros para superar o Golf Variant.

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Particularmente, torço pela vitória póstuma do Golf Variant . Pelo menos assim o mercado e o destino darão a essa maravilhosa perua, que silenciosamente nos deixou, uma despedida digna de sua qualidade, coisa que a Volkswagen não ousou fazer. Mas não sei se isso eximirá de culpa o presidente Pablo Di Si, que podia, todavia não quis, salvar mais uma perua da morte.