As idas e vindas de um Chevrolet Omega 1998 com tração traseira e eixo cardã bipartido, uma raridade que deu trabalho e alegrias ao dono

Chevrolet Omega GLS 2.2 1998:  raro exemplar se mantém como saiu da fábrica da GM, há quase 20 anos
Arquivo pessoal/Rodrigo Mora
Chevrolet Omega GLS 2.2 1998: raro exemplar se mantém como saiu da fábrica da GM, há quase 20 anos

O cardã, aquela peça que transmite a força gerada pelo motor às rodas de trás em carros de tração traseira, é partido ao meio no Omega . Um coxim se espreme entre os dois, juntando-os. Com 18 anos de vida – parte considerável deles imóvel na garagem –, o tal coxim esfarelou, rachou e perdeu a função de ligar as duas partes do cardã. Esse quase insignificante componente, semelhante a um rolo de fita isolante, foi o motivo da minha primeira jornada a sites, fóruns, lojas e oficinas.

Depois foi o escapamento, que furou quando o hodômetro exibia tímidos 71.410 km. Problema resolvido de maneira rápida e barata. Ainda com o coxim capenga lá embaixo, mas sem ronco de carro de corrida, chegou a hora de passear sem preocupações. Não tão depressa.

Voltando da casa de um tio com a mãe no banco do passageiro, o ponteiro da temperatura quase pula do painel e o motor entra em modo de segurança, sem passar dos 3.000 rpm. Sorte que a nova namorada morava no meio do caminho, e lá o carro dormiu. No dia seguinte, toca botar o carro no guincho e seguir para a oficina. Mangueira do sistema de arrefecimento rachada, provavelmente pelo ressecamento após uma longa temporada sem uso. Pode vir buscar o carro amanhã, diz o mecânico.

Até que os dias seguintes foram divertidos. Tudo funcionou bem, visitamos lugares, demos caronas, reatamos e ficamos mais íntimos. Sentia que o pedal da embreagem estava um pouco pesado, mas tudo bem, acho que aguenta até o mês que vem. Tolinho.

À noite (pra variar), debaixo de garoa, entrando na estrada, a quinta marcha entrou, mas o pedal ficou emperrado lá embaixo. Cabo da embreagem arrebentou. O resto você já imagina: guincho, mecânico e menos dinheiro na conta.

Isso sem falar da quantidade de baterias arriadas, da vibração que parece vir da parte de trás do carro (acho que é cruzeta), da máquina do vidro elétrico que quebrou ontem, das borrachas de vedação já desbeiçadas e da mola da tampa do porta-luvas que caiu.

Às vezes desanima, e até me livrar dessa lata velha que só dá trabalho passa pela cabeça. Mas desconfio que esse seja um dos encantos de ter carro antigo. Manter tudo em perfeito funcionamento, garimpar peças e descobrir a causa daquele barulho que só você escuta acaba sendo uma terapia. Se nada desse problema, se nada quebrasse, talvez não tivesse tanta graça.

E é quando o frentista elogia, o vizinho dá aquela babada ou o motorista ao lado pergunta se está à venda que você olha pro seu parceiro dos bons e maus momentos todo orgulhoso, com a certeza de que tudo valeu a pena. Mesmo que você ainda não tenha encontrado o coxim do cardã.


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