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Baseado na picape F-150, utilitário é preparado pela subdivisão esportiva da Ford. O resultado? Números tão impressionantes quanto as emoções a bordo

Ford Raptor: Versão esportiva do carro mais vendido dos EUA há 36 anos, o Ford F-150. Será que conquistará o Brasil?
Guilherme Menezes/iG
Ford Raptor: Versão esportiva do carro mais vendido dos EUA há 36 anos, o Ford F-150. Será que conquistará o Brasil?

Uma dúvida que sempre tive é como que a F-150 — que inclui a Ford Raptor — pode ser, por 36 anos consecutivos, o carro mais vendido no Estados Unidos. O mercado consumidor norte-americano é um dos que mais gosta de luxo, espaço interno e conforto, motores grandes, aceleração bruta e tecnologias. Só que as picapes não são pensadas para entregar nada disso. Não possuem uma dinâmica precisa, são barulhentas, quicam demais e quase nenhuma delas tem desempenho empolgante. Enfim, são opostas aos Buick, Cadillac ou os Lincoln, que tem motores grandes e são extremamente aconchegantes.

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A picape Ford Raptor tem proporções de carroceria gigantescas e visual que desbanca qualquer  rival. Olha só para esses números e tire as próprias conclusões sobre o que estou falando: pesa 2.582 kg, seu tanque comporta 136 litros (com a gasolina a R$ 5/litro, estamos falando de R$ 680 para encher um tanque), mede quase seis metros de comprimento, tem dois metros de altura, 2,2 metros de largura, seu câmbio automático tem 10 marchas e o motor V6 biturbo, entrega 456 cv e brutais 70,5 kgfm.

Seja por admiração, seja por esboçar a insanidade que seria uma picape dessas rodando pelas ruas do Brasil, a Ford conta muito com as reações do público brasileiro para confirmar se será vendida ao lado do Mustang GT e do esportivo Edge ST . Com isso, fomos convidados a testar uma das duas únicas unidades a colocar os seus pneus em solo brasileiro.

Brutalidade do Ford Raptor é militar, mas civil

Ford Raptor ataca as curvas com ferocidade, mas não deixa de lado o conforto típico dos carros de luxo norte-americanos
Guilherme Menezes/iG
Ford Raptor ataca as curvas com ferocidade, mas não deixa de lado o conforto típico dos carros de luxo norte-americanos

O primeiro contato com a picape foi como passageiro, ao lado de um dos pilotos oficiais da Ford. Após afivelar o cinto de segurança, o monstro partiu em um trajeto off-road e me senti nos desertos do Afeganistão, ao lado de militares americanos, perseguindo o Estado Islâmico numa fuga alucinante. Em diversos momentos atingimos os 160 km/h, rasgamos as curvas, inclusive de lado, acima dos 100 km/h, saltamos e freamos dessas velocidades a quase zero em um piscar de olhos. E o mais impressionante de tudo foi que, apesar de alguns grandes impactos contra o solo, senti mais conforto que em qualquer outra picape que já estive nas ruas esburacadas da cidade.

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Seu espaço interno é similar aos dos SUVs grandes, seus assentos são largos e confortáveis, mas seguram bem quando a Raptor decide atacar as curvas. Além disso, o seu sistema de suspensão, apesar de robusto, consegue garantir bastante suavidade em seu curso e sustentar brilhantemente a trajetória, mesmo quando se contorcia durante as transições de direção. Isso sem falar no seu arranque poderoso, que mesmo no fora-de-estrada, ficaria lado-a-lado com qualquer esportivo acelerando no asfalto. Eu estava começando a entender o porque é tão consagrada em seu país de origem.

A Special Vehicle Team (SVT), divisão esportiva da Ford, se inspirou nos Baja usados em competição para criar sua versão. É por isso que, em vez de ser rebaixada e usar pneus de perfil menor, a F-150 Raptor utiliza enormes BFGoodrich All Terrain que fazem as rodas de 17 polegadas parecerem 14 (que por sinal é o diâmetro dos discos dianteiros). Além disso, seus amortecedores de competição da Fox Racing, duplos na traseira, garantem 33 cm de curso na frente e 35 cm atrás.

Nesta segunda geração da Raptor, o V8 6.2 de 411 cv deu lugar ao 3.5 V6 biturbo do supercarro Ford GT, que neste chega a entregar 655 cv e 76 kgfm. Já o câmbio automático de dez marchas é compartilhado com o Mustang e é todo feito de alumínio, assim como a sua carroceria . Isso representou uma redução de 220 kg no peso, que para se ter uma ideia, apesar dos 2.582 kg, aproxima-se muito dos 2.261 kg de um Ranger Limited, mesmo medindo 53 centímetros a mais. De acordo com a Ford, acelera de 0 a 100 km/h em 5 segundos.

Enfim, chegou a minha vez de testá-la ao volante. Em vez de amortecedores ajustáveis, tem seis modos de condução, além dos quatro modos de tração e da opção de bloquear o diferencial traseiro. Mantenho a tração em 4×2 e mudo para o modo Sport, esperando que o controle de estabilidade fique mais permissivo. Mas é só começar a escorregar um pouco mais que ele entra em ação para forçar saídas de dianteira, o que para gente como eu, que gosta de “surras” de emoção ao pilotar, acabou estragando a diversão.

O que chama atenção nesse primeiro momento é a precisão da direção elétrica, muito direta para os padrões das picapes, mesmo com o modo Sport, que agrega rigidez e responsividade. Isso enquanto o acelerador fica mais preciso e o câmbio passa a trocar as marchas quando a rotação do motor chega perto de 6.000 rpm.

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Ford F-150 Raptor tem revestimento de couro Alcantara até mesmo nos bancos traseiros
Guilherme Menezes/iG
Ford F-150 Raptor tem revestimento de couro Alcantara até mesmo nos bancos traseiros

Há ajustes para lama e areia, neve e chuva, e um próprio para encarar pedras em baixa velocidade. Mas até para que foi mais pensada, o modo Baja é um dos maiores destaques quando se pensa em dinâmica apurada. Nessa versão, a Ford F-150 tem diferencial central Torsen de deslizamento limitado, como o Mitsubishi L200 e o VW Amarok. Ele controla a distribuição de torque entre os eixos, permitindo usar a tração 4×4 em pisos aderentes ou em alta velocidade.

E no que a F-150 “endiabrada” é inferior quando se pensa em custo-benefício? A resposta é quando é usada como uma picape propriamente dita. A versão esportiva Raptor leva no máximo 549 kg na caçamba, ou 156 kg a menos que uma Fiat Strada Cabine Simples com motor 1.4, de 88 cv. No reboque puxa até 3.628 kg, melhor que os 2.680 kg da Ranger, mas distante dos 7.750 kg de uma RAM 2500, rival de mesmo porte. A variante insana da F-150 é pensada para ser mais uma picape divertida do que de fato funcional.

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Enquanto a versão de entrada custa R$ 107 mil nos EUA, a Ford Raptor 2019 não sairá por menos de US$ 57.335, ou R$ 220.700 com o dólar a R$ 3,85. Na China, uma equivalente à destas fotos custa o equivalente a R$ 322.500. Entretanto, a única saída para quem quiser uma hoje é apelar para a importação direta, com importadores que trazem a versão há anos. O preço fica ao redor dos R$ 500.000, pois varia de acordo com o pacote de equipamentos e a cotação do dólar. Abaixo, assista ao vídeo da picape esportiva em ação.


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